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Bom-crioulo
Adolfo Caminha
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Bom-crioulo
1
A velha e gloriosa corveta - que pena! - j nem sequer lembrava o
mesmo navio d'outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo,
como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando
serena o corcovo das ondas!...
Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas
encardidas de mofo, sem aquele esplndido aspecto guerreiro que
entusiasmava a gente nos bons tempos de "patescaria". Vista ao
longe, na infinita extenso azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantstica
de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaa flutuante,
desde a brancura lmpida e triunfal das velas at a primitiva pintura do
bojo.
No entanto ela a vinha - esquife agourento - singrando guas da
ptria, quase lgubre na sua marcha vagarosa; ela a vinha, no j
como uma enorme gara branca flechando a lquida plancie, mas
lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalptico de asas
abertas sobre o mar...
Havia pouco entrara na regio das calmarias: o pano comeava a
bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois,
com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a
viagem tornava-se montona; a larga superfcie do oceano estendia-se
muito polida e imvel sob a irradiao meridional do sol, e a corveta
deslizava apenas, to de leve, to de leve que mal se lhe percebia o
movimento.
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indcio algum de criatura
humana fora daquele estreito convs: gua, somente gua em
derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilvio
medonho..., e no alto, l em cima, o silncio infinito das esferas
obumbradas pela chuva de ouro do dia.
Triste e nostlgica paisagem, onde as cores desmaiavam  fora de luz
e a voz humana perdia-se numa desolao imensa!
Marinheiros conversavam  proa, sentados uns no castelo, outros em
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p, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqilamente,
esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peas,
varais de escotilha, tudo quanto  ao e metal amarelo reluz
fortemente, encandeando a vista.
De vez em quando h um grande rebulio: a mastreao geme, como
se fora desprender-se toda, o pano bate com fora de encontro s
vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o
cachoeirar da gua no bojo da velha nau.
- Agenta! diz uma voz.
E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tdio, a calmaria sem
fim...
J os primeiros sintomas de indolncia refletiam-se no semblante da
gente, convertendo-se em bocejos e espreguiamentos de sesta, e
ainda ficavam to longe as montanhas da costa e os carinhos da
famlia!...
Escasseavam os gneros, e o regimen de carne-seca e das conservas
em lata aproximava-se ameaadoramente, causando apreenses 
marinhagem.
Tinham dado onze horas na sineta de proa.
O tenente que estava de quarto no passadio conferiu o relgio
d'algibeira, um belo cronmetro de ouro comprado em Toulon, torceu
o bigode, passou uma vista d'olhos no aparelho, e, dirigindo-se para a
espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco,
metlica:
- Corneta!
Era um oficial distinto, moo, moreno, os olhos vivos e inteligentes,
grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar
de navegao prtica.
Ningum a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava
d'olhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe  ponta do lpis de
um modo admirvel. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a
hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo sei
entranhado amor s matemticas e  vida naval. Como guardamarinha
deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente "para no
perder o hbito". Inimigo de terra, preferia o farniente de seu
camarote, ali ao p dos livros e das fotografias martimas, ao
movimento esterilizador e absorvente dos cafs e dos teatros.
- Corneta! repetiu, carregando o semblante numa sombria expresso
de constrangimento.
Outras bocas foram transmitindo a ordem at que surgiu, correndo, a
figura extica de um marinheiro negro, d'olhos muito brancos, lbios
enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja
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fisionomia acentuavam-se linhas caractersticas de estupidez e
subservincia
- Pronto! disse levando a mo ao bon com um jeito marcial.
- Toca mostra, ordenou o tenente.
s primeiras notas da corneta, lmpidas e sem eco no silncio do mar
alto, houve logo um estranho bulcio em todos os recantos da corveta.
- Agora os marinheiros que descansavam  proa, olhavam-se por cima
dos ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas cobertas o
movimento foi-se acelerando  proporo que o toque finalizava,
sobressaindo no atropelo a voz dos guardies: - Sobe, sobe, - tudo
para cima! - de envolta com um barulho de ferros que vinha dos
pores.
O "mestre d'armas", cabrocha pedante, muito cheio de si e de seus
gales reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas, num
exagero metdico de instrutor de colgio, arredando uns para colocar
outros, advertindo estes porque no tinham a camisa abotoada e
aqueles porque no tinham "fita" no bon, ameaando estoutro de
lev-lo  presena de "seu" tenente porque recusava-se a perfilar...
Oficiais comeavam a aparecer em segundo uniforme - bon e
dragonas -, arrastando as espadas, mirando-se d'alto a baixo,
apertados no talim de pano azul, por cima da farda.
Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais - aqueles
alinhados a dois de fundo, num e noutro bordo, estes a r, perto do
mastro grande, em atitude respeitosa de quem vai assistir a um ato
solene.
Tinha-se feito silncio. Uma ou outra voz segredava baixinho,
timidamente. E agora, no silncio da mostra,  que se ouvia bem o
cachoeira de gua no bojo da corveta caturrando...
- Agenta!
Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de camura,
teso na sua farda nova, o ar autoritrio, solta a espada num abandono
elegante, as dragonas tremulando sobre os ombros em cachos de
ouro, todo ele comunicando respeito.
Era homem robusto de feies e presena nobre, olhar enrgico, muito
moreno, desse moreno carregado, cor de bronze, que o sol imprime
nos homens do mar, bigode largo e compacto, levemente grisalho,
com uma ponta de arrogncia convencional.
Silncio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cada olhar tinha um
brilho especial de indiscreta curiosidade. Um frmito de instintiva
covardia, como uma corrente eltrica, vinha  face de toda aquela
gente abespinhada ali assim perante um s homem, cuja palavra
trazia sempre o cunho spero da disciplina. Era um respeito profundo
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chegando s raias da subservincia animal que se agacha para receber
o castigo, justo ou injusto, seja ele qual for.
- Os presos..., fez o comandante, sem se alterar, dando um puxo na
manga da farda.
Todos os olhos voltaram-se para o fiel d'artilharia, vivamente curiosos,
enquanto este, obedecendo  ordem, precipitou-se pela escada que ia
ter  coberta, mudo e taciturno.
O tenente continuava no passadio, a passear como se tudo corresse
s mil maravilhas naquele pequeno mundo flutuante de que ele era,
agora, uma espcie de rei provisrio. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e
igual como o de uma sentinela noturna.
A luz intensa do sol caa do alto, pondo brilhos de malacacheta no
cristal imenso do mar clamo. Um calor forte e asfixiante penetrava a
carne, acelerando a circulao, congestionando, irritando o sistema
nervoso atrozmente, implacavelmente.
Toda a atmosfera parecia vibrar num incndio universal.
E o pano, largo e frouxo, a bater, a bater como uma cousa
desesperada...
- Calmaria estpida! pensava o tenente consultando os horizontes. -
Ele, o grande patesca, a olhar o tempo, sem fazer nada, por causa de
um diabo de calma interminvel. Rarssimas vezes lhe acontecia
aquilo: era mesmo para danar uma pessoa...
Chegam os presos: um rapazinho magro, muito amarelo, rosto liso,
completamente imberbe; outro regulando a mesma idade, mas um
pouco moreno, tambm grumete; e um primeira-classe, negro alto,
espadado, cara lisa.
Vinham em ferros, um a um, arrastando os ps num passo curto e
demorado, e encaminharam-se para o meio do convs, fazendo alto a
um aceno do comandante. Este imediatamente segredou a outro
oficial, que estava a seu lado com um livro na mo, e, dirigindo-se ao
primeiro sentenciado, o da frente, o rapazinho amarelo, cor da terra:
- Sabe por que vai ser castigado?
O grumete, sem levantar a cabea, murmurou afirmativamente: que
sim, senhor...
Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de adolescente havia
uns longes de melancolia serena, assim como uma precoce morbidez
sintomtica... um secreto arrependimento.
Na gola quadrangular de flanela azul destacava a divisa branca de sua
classe.
As unhas metiam nusea, muito quilotadas de alcatro, desleixadas
mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impresso
desagradvel e persistente.
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O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras
"disciplina e ordem" repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabea e
logo o oficial imediato, um louro, de bigode, comeou a leitura do
Cdigo na parte relativa a castigos corporais.
A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silenciosa, com um vago
respeito no olhar, aquele repisado captulo do livro disciplinar, em p,
 luz dura e mordente do meio dia, enquanto o oficial do quarto,
gozando a sombra reparadora de um largo toldo estendido sobre sua
cabea, ia e vinha, de um bordo a outro bordo, sem se preocupar com
o resto da humanidade.
Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo
e reforado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e
bon e segurando com ambas as mos, sobre o joelho em descanso, o
instrumento de castigo: era o guardio Agostinho, o clebre guardio
Agostinho, especialista consumado no ofcio de aplicar a chibata, o
mais robusto e valente de todos os guardies, e cujo zelo em cousas
de "patescaria" tornara-se proverbial, Nos momentos de manobra
difcil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente
munido de um apito de prata, no se afastando nunca de suas
obrigaes.
- Caboclo macho! diziam os companheiros.
Se acontecia desprender-se um moito, um cabo qualquer, l cima nos
mastros, em lugar arriscado, ele, mais que depressa, galgava os
enfrechates, com aquele corpo muito pesado, transpunha o cesto da
gvea, sem olhar para trs, e ei-lo agarradinho aos vaus, atando e
desatando, ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilando com o navio,
em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas palavras, muito
metido consigo, tolerante e enrgico ao mesmo tempo em matria de
servio, no compreendia a disciplina sem chibata, "nico meio de se
fazer marinheiro".
E tinha sempre esta frase na ponta da lngua: - Navio de guerra sem
chibata  pior que escuna mercante...
Por isso os companheiros no o estimavam muito; pelo contrrio,
evitavam a sua presena, procurando intrig-lo com o mestre e com
os outros inferiores. - O guardio Agostinho, sim, que era homem
valente, capaz de comandar um quarto...
E riam s escondidas, praguejando contra "o burro do Agostinho, que
nem ao menos tinha jeito para capito de proa..."
Ele ali se achava tambm, no sue posto,  espera de um sinal para
descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a vtima. Sentia um
prazer especial naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania...
- Vinte e cinco..., ordenou o comandante.
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- Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radiante, cheio de
satisfao, vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade.
- No, no: com a camisa...
E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o
dorso a fora brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava,
sonolenta e a arrastada:
- Uma!... e sucessivamente: duas!... trs!... vinte e cinco!
Herculano j no suportava. Torcia-se todo no bico dos ps, erguendo
os braos e encolhendo as pernas, cortado de dores agudssimas que
se espalhavam por todo o corpo, at pelo rosto, como se lhe
rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e
trmulo que ningum ouvia seno ele prprio no desespero de sua
dor.
Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferena de
mmias.
- Corja! regougou o comandante brandindo a luva. No se
compenetram de seus deveres, no respeitam a autoridade! Hei de
ensin-los: ou aprendem ou racho-os!
O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver
sempre retrado, pelos cantos, evitando a companhia dos outros,
fazendo seu servio calado, no se envolvendo em sambas  noite, na
proa. Tmido e esquivo, cada vez mais plido, o olhar morto com uma
pronunciada aurola de bistre, a voz cansada, caindo de fraqueza, -
tinham-lhe dado o apelido ridculo de Pinga...
O grumete no podia se conformar com esse tratamento, por mais
inofensivo que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes
palavres de regateira aprendidos ali mesmo a bordo.
-  Pinga!...
Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabulrio do insulto numa
clera ameaadora que s vezes chegava ao delrio.
Os outros, porm, caam na gargalhada:
- Olha o Pinga! Segura ele!
- Pinga  ...
E l ia uma obscenidade, um calo grosseiro.
Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em questes
de outra ordem e da prises, castigos...
Ora, aconteceu que, na vspera desse dia, Herculano foi surpreendido,
por outro marinheiro, a praticar uma ao feia e deprimente do carter
humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto  amurada, em p, a
mexer com o brao numa posio torpe, cometendo, contra si prprio,
o mais vergonhoso dos atentados.
O outro, um mulatinho esperto. que tinha o hbito de andar espiando,
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 noite, o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o
Sant'Ana, e, riscando um fsforo, aproximaram-se ambos "para
examinar".... No convs brilhava a ndoa de um escarro ainda fresco:
Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime no previsto nos
cdigos, um crime de lesa natureza, derramando inutilmente no
convs seco e estril, a seiva geradora do homem.
Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante
naquela grotesca situao. Investiu para o Sant'Ana, fulo de raiva,
extremamente plido, e com pouco estavam os dois agarrados numa
luta corpo a corpo, aos trambolhes, acordando os que dormiam por
ali o bom sono da madrugadinha... Terminou o alvoroo com a priso
de ambos.
- Ah! seu Pinga, seu Pinga!... repetia o guardio do quarto. No pense
que, por ser branco, h de fazer das suas...
Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada Sant'Ana que
tambm ia ser castigado.
O Sant'Ana, porm, no era l rapaz de que sofresse calado: tinha
sempre o que dizer na ocasio do castigo, desculpando-se como podia
perante a autoridade a fim de escapar manhosamente  ao criminal,
o que nunca lhe sucedera, porque toda gente o conhecia bastante.
Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo
rente,  escovinha, olhos negros, nariz acaapado, cara magra, e cujo
nome l estava no livro de castigos um ror de vezes. Gago de
nascena, fazia rir aos companheiros quando abria a boca para dizer
qualquer cousa, principalmente se estava num de seus momentos de
sobreexcitao colrica, porque, ento, ningum o compreendia.
Tinha a facilidade ingnita das lgrimas: a mais leve comoo fazia-o
chorar, transformando-lhe os olhos em duas fontes de mida ternura.
Ps-se logo a gaguejar uma histria de "implicaes": que estava bem
sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provoc-lo, "implicar
com ele"...
- Vamos, guardio, vamos, que  tarde. No estou para ouvir
histrias. V!...
Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir cousa
alguma, com um risinho de instintiva malvadez no canto da boca,
desfechou o primeiro golpe:
- Uma! contou a mesma voz de h pouco.
O rapaz empinou-se na ponta dos ps, arregalando muito os olhos,
esfregando as mos.
- Ah! gemeu com um grito de dor. - Pe... pe... pelo amor de... de... de
Deus, seu... seu... comandante!
- Vamos, vamos!...
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Seguiram-se as outras chibatadas implacveis, brutais como custicos
de fogo, caindo uma a uma, dolorosamente, no corpo franzino do
marinheiro.
Ele no teve jeito seno suport-las todas, uma a uma, porque de
nada lhe serviam os gritos, as splicas e as lgrimas...
- Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em sbita clera,
mal humorado sob a luz ardentssima do meio dia tropical. - Hei de
corrigi-los: corja!
Nenhum frmito de comoo na marinhagem, testemunha habitual
daquelas cenas que j no logravam produzir efeitos sentimentais,
como se fora a reproduo banal de um quadro muito visto.
Comeava a cair uma aragenzinha leve, to leve que apenas atenuava
a fora custica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente.
O tenente, um pouco animado agora com a virao que precede os
ventos largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por
chamar a gente aos "braos".
Meio dia quase e ainda no estava acabado o castigo.
Seguia-se o terceiro preso, um latago de negro, muito alto e
corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidvel
sistema de msculos, a morbidez patolgica de toda uma gerao
cadente e enervada, e cuja presena ali naquela ocasio, despertava
grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa - o
BOM CRIOULO na gria de bordo.
- Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na
voz e no semblante.
Houve um sussurro longnquo, um leve, um tmido murmrio nas
fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que
assalta os espectadores de um teatro nas mutaes de cenrio. Agora
a cousa era outra, na verdade. O Herculano e o Sant'Ana, de resto,
no passavam de uns pulhas, de uns miserveis marinheiros que
dificilmente agentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns
crianolas!... Queria-se ver o Amaro, o clebre, o terrvel Bom-Crioulo.
Fez-se nova leitura do Cdigo em voz lenta e cadenciada de ofcio
religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito
justa e luzida:
- Sabe por que vai ser castigado?
- Sim senhor.
Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais
ligeiro constrangimento, firmando o olhar, atrevidamente, nos gales
de ouro daquele oficial. Em p, junto ao mastro, unidos os
calcanhares, os braos caindo ao longo do corpo, militarmente
perfilado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito da cabea,
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onde quer que fosse, um recolhido e traioeiro cunho de flexibilidade e
destreza felinas.
Com efeito, Bom-Crioulo no era somente um homem robusto, uma
dessas organizaes privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira
resistncia do bronze e que esmagam com o peso dos msculos.
A fora nervosa era nele uma qualidade intrnseca sobrepujando todas
as outras qualidades fisiolgicas, emprestando-lhe movimentos
extraordinrios, invencveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e
raro.
Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe  fora de um
exerccio continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos
com soldados e catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado.
Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de
aguardente, chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o
obrigavam a toda a sorte de loucuras.
Armava-se de navalha, ia para os cais, todo transfigurado, os olhos
dardejando fogo, o bon de um lado, a camisa aberta num desleixo de
louco, e ento era um risco, uma temeridade algum aproximar-se
dele. O negro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mundo
fugir, marinheiros e homens da praia, porque ningum estava para
sofrer uma agresso...
Quando havia conflito no cais Pharoux, j toda gente sabia que era o
Bom-Crioulo s voltas com a polcia . Reunia povo, toda a populao
do litoral corria enchendo a praa, como se tivesse acontecido uma
desgraa enorme, formavam-se partidos a favor da polcia e da
marinha... uma cousa indescritvel!
O motivo, porm, de sua priso agora, no alto mar, a borda da
corveta, era outro, muito outro: Bom-Crioulo esmurrara
desapiedadamente um segunda classe, porque este ousara, "sem o
seu consentimento", maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheirito
de olhos azuis , muito querido por todos e de quem diziam-se
"cousas".
Metido em ferros no poro, Bom-Crioulo no deu palavra.
Admiravelmente manso, quando se achava em seu estado normal,
longe de qualquer influncia alcolica, submeteu-se  vontade
superior, esperando resignado o castigo. - Reconhecia que fizera mal,
que devia ser punido, que era to bom quanto os outros, mas, que
diabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem...
Depois estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar
inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra
virgem, um pas de ouro... Estava satisfeitssimo.
A chibata no lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como
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um Hrcules ao pulso do guardio Agostinho. J nem se lembrava do
nmero das vezes que apanhara de chibata...
- Uma! cantou a mesma voz. - Duas!... trs!...
Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodo, e, nu da cintura para
cima, numa riqussima exibio de msculos, os seios muito salientes,
as espduas negras reluzentes, um sulco profundo e liso d'alto a baixo
no dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve
dos castigos.
Entretanto, j iam cinqenta chibatadas! Ningum lhe ouvira um
gemido, nem percebera uma contoro, um gesto qualquer de dor.
Viam-se unicamente naquele costo negro as marcas do junco, umas
sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha,
roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.
De repente, porm, Bom-Crioulo teve um estremecimento e soergueu
um brao: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o
baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma fora
extraordinria.
Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver,
afinal, triunfar a rijeza de seu pulso.
Marinheiros e oficiais, num silncio concentrado, alongavam o olhar,
cheios de interesse, a cada golpe.
- Cento e cinqenta!
S ento houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra
deslizar no espinhao negro do marinheiro e logo este ponto vermelho
se transformar numa fita de sangue.
Nesse momento o oficial, ponteirando o culo de alcance, procurava
reconhecer uma sombra quase invisvel que parecia flutuar muito
longe, nos confins do horizonte: era, talvez, a fumaa de algum
transatlntico...
- Basta! imps o comandante.
Estava terminado o castigo. Ia recomear a faina.
2
Inda estava longe, bem longe a vitria do abolicionismo, quando Bom-
Crioulo, ento simplesmente Amaro, veio, ningum sabe donde,
metido em roupas d'algodozinho, trouxa ao ombro, grande chapu de
palha na cabea e alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos),
ignorando as dificuldades por que passa todo homem de cor em um
meio escravocrata e profundamente superficial como era a Corte -
ingnuo e resoluto, abalou sem ao menos pensar nas conseqncias
da fuga.
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Nesse tempo o "negro fugido" aterrava as populaes de um modo
fantstico. Dava-se caa ao escravo como aos animais, de espora e
garrucha, mato a dentro, saltando precipcios, atravessando rios a
nado, galgando montanhas... Logo que o fato era denunciado - aquidel-
rei! - enchiam-se as florestas de tropel, saiam estafetas pelo
serto num clamor estranho, medindo pegadas, aulando ces,
rompendo cafezais. At fechavam-se as portas com medo... Jornais
traziam na terceira pgina a figura de um "moleque" em fuga, trouxa
ao ombro, e, por baixo, o anncio, quase sempre em tipo cheio,
minucioso, explcito, com todos os detalhes, indicando estatura, idade,
leses, vcios, e outros caractersticos do fugitivo. Alm disso o
"proprietrio" gratificava generosamente a quem prendesse o escravo.
Conseguindo, porm, escapar  vigilncia dos interessados, e depois
de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa espcie de jaula
com grades de ferro, Amaro, que s temia regressar  "fazenda",
voltar ao seio da escravido, estremeceu diante de um rio muito largo
e muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os sentidos, 
vela, outros deitando fumaa, e l em cima, beirando a gua, um
morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto.
Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (at ficou
envergonhado...), examinaram-lhe as costas, o peito, as virilhas, e
deram-lhe uma camisa azul de marinheiro.
No mesmo dia foi para a fortaleza, e , assim que a embarcao largou
do cais a um impulso forte, o novo homem do mar sentiu pela primeira
vez toda a alma vibrar de uma maneira extraordinria, como se lhe
houvessem injetado no sangue de africano a frescura deliciosa de um
fluido misterioso. A liberdade entrava-lhe pelos olhos , pelos ouvidos,
pelas narinas, por todos os poros, enfim, como a prpria alma da luz,
do som, do odor e de todas as cousas etreas... Tudo que o cercava: a
planura da gua cantando na proa do escaler, o imaculado azul do
cu, o perfil longnquo das montanhas, navios balouando entre ilhas,
e a casaria imvel da cidade que ficava para trs - os companheiros
mesmo que iam remando igual, como se fossem um s brao -, e
sobretudo, meu Deus!, sobretudo o ambiente largo e iluminado da
baa: enfim, todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma
sensao to forte de liberdade e vida, que at lhe vinha vontade de
chorar, mas de chorar francamente, abertamente, na presena dos
outros, como se estivesse enlouquecendo... Aquele magnfico cenrio
gravara-se-lhe na retina para toda a existncia; nunca mais o havia de
esquecer, , nunca mais! Ele, o escravo, o "negro fugido" sentia-se
verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser,
grande como a natureza, em toda a pujana viril da sua mocidade, e
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tinha pena, muita pena dos que ficavam na "fazenda" trabalhando,
sem ganhar dinheiro, desde a madrugada t ... sabe Deus!
No princpio, antes de ir para bordo, foi-lhe difcil esquecer o passado,
a "me Sabina", os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez
chegava a sentir um vago desejo de abraar os seus antigos
companheiros do eito, mas logo essa lembrana esvaa-se como a
fumaa longnqua e tnue das queimadas, e ele voltava  realidade,
abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de
embarcaes...
A disciplina militar, como todos os seus excessos, no se comparava
ao penoso trabalho da fazenda, ao regimen terrvel do tronco e do
chicote. Havia muita diferena... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha
sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar,
como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanh suculenta
feijoada, e, s sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e
"sangue de Cristo"... Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha
gente, s a liberdade valia por tudo! Ali no se olhava a cor ou a raa
do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias - o
mesmo servio, a mesma folga. - "E quando a gente se faz estimar
pelos superiores, quando no se tem inimigos, ento  um viver
abenoado esse: ningum pensa no dia d'amanh!"
Amaro soube ganhar logo a afeio dos oficiais. No podiam eles, a
princpio, conter o riso diante daquela figura de recruta alheio s
praxes militares, rude como um selvagem, provocando a cada passo
gargalhadas irresistveis com seus modos ingnuos de tabaru; mas,
no fim de alguns meses, todos eram de parecer que "o negro dava
para gente". Amaro j sabia manejar uma espingarda segundo as
regras do ofcio, e no era l nenhum botocudo em artilharia; criara
fama de "patesca".
Nunca, durante esse primeiro ano de aprendizagem, merecera a pena
de um castigo disciplinar: seu carter era to meigo que os prprios
oficiais comearam a trat-lo por Bom-Crioulo. Seu maior desejo,
porm, sua grande preocupao, era embarcar fosse em que navio
fosse, acostumar-se a viver no mar, conhecer, enquanto estava moo,
os costumes de bordo, saber praticamente "amichelar uma verga, rizar
uma vela, fazer um quarto na agulha..." Podia muito bem ser
promovido logo... Invejava os que andavam no alto-mar, longe de
terra, bordejando  solta por esses mundos de Deus. Como devia de
ser bom para a alma e para o corpo o ar livre que se respira l fora,
sobre as guas!...
Divertia-se a construir pequenas embarcaes de madeira imitando
navios de guerra com flmula no tope do mastro e portinholas,
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cruzadores em miniatura, iatezinhos, tudo  ponta de canivete e com a
pacincia tenaz de um arquiteto.
Mas, nada de o fazerem embarcar definitivamente! Ia para bordo, s
vezes, em exerccio, remando no escaler, mas voltava logo com a
turma dos outros aprendizes, triste por no ter ficado, sonhando
histrias de viagens, cousas que havia de ver, quando pela primeira
vez sasse pela barra fora...
Chegou afinal esse dia. Bom-Crioulo estava nomeado para embarcar
num velho transporte que seguia para o sul.
- Ora, at! fez ele, erguendo os braos com um gesto de maravilhosa
surpresa. At que enfim, graas a deus, lembraram-se do Bom-
Crioulo!
E saiu por ali muito feliz, muito alegre, todo alvoroado, anunciando
seu destino. - Queriam alguma cousa do sul? Nem uma
lembranazinha do Rio Grande? Nada, nada ?...
- Traze uma paraguaia,  Bom-Crioulo, gracejava um.
- Olha, eu me contento com uma dzia d'ovos, de Santa Catarina...
Outros encomendavam-lhe cousas impossveis: um pedao de "gringo"
assado; uma tera de sangue espanhol: a orelha de um "barrigaverde"...
E riam todos no rancho, e todos o que estimavam  que Amaro fosse
muito feliz na sua primeira viagem, que voltasse gordo e forte "pra
matar galego no cais dos Mineiros".
Alguns gabavam o comandante do transporte, o velho Novais, bom
homem, que no gostava de castigar e que era at amigo dos
marinheiros.
- E o imediato?
Ora, o imediato era um tal Pontes, um de suas, que naufragara na
corveta Isabel, muito feio, coitado, mas boa pessoa; tambm no fazia
mal a ningum, pelo contrrio - marinheiro que lhe casse nas graas
era tratado a vinho do Porto...
Bom-Crioulo exultava!
O embarque devia se efetuar  tardinha, pouco antes de "arriar a
bandeira".
Todo ele estava pronto, e via-se-lhe no olhar, na fala, nos modos, o
grande contentamento de que estava cheio seu corao. Era uma
felicidade estranha, um bem estar nunca visto, assim como o comeo
de uma loucura inofensiva e serena, que o fazia mais homem vinte
vezes, que o tornava mais forte e retemperado para as lutas da vida.
Suave embriaguez dos sentidos, essa que vem de uma grande alegria
ou de uma tristeza imensa... Bom-Crioulo s experimentara prazer
igual quando o tinham obrigado a conhecer o que  liberdade,
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recrutando-o para a marinha. Essa liberdade ampliava-se agora a seus
olhos, crescia desmesuradamente em sua imaginao, provocando-lhe
frmitos de alucinado, abrindo-lhe n'alma horizontes cor-de-rosa,
largos e ignorados.
No deixava um s inimigo, um rival sequer na fortaleza; ia bem com
todos, egosta na sua felicidade, mas levando a saudades irresistvel
dos que se vo embora...
Quando o escaler que o conduzia se afastou da ponte, onde os
companheiros acenavam com os bons, num entusiasmo comovente,
ele sentiu a quentura de uma lgrima fugitiva descer-lhe rosto abaixo,
e, disfarando, ps-se tambm a acenar, em p na embarcao, vendo
sumirem-se pouco a pouco, na bruma do crepsculo, os contornos da
ilha e as saudaes da maruja.
Parecia-lhe ouvir ainda, na proa do transporte, como as ltimas
reminiscncias de um sonho, a voz dos companheiros abraando-o: -
Adeus,  Bom-Crioulo: s feliz!
No dormiu toda essa noite. Estendido no convs sobre o dorso, como
se estivesse num bom leito macio e amplo, viu desaparecerem as
estrelas, uma a uma, na penumbra da antemanh, e o dia ressurgir
glorioso, dourando os rgos, ourejando os edifcios, cantando o hino
triunfal da ressurreio.
E pouco depois o esplndido cenrio da baa transformara-se num
vastssimo oceano deserto e resplandecente, desdobrando-se num
crculo imenso d'gua, onde no verdejava sequer um canto de osis...
A grandeza do mar enchia-o de uma coragem espartana. Ali se
achava, ao redor dele, a sublime expresso da liberdade infinita e da
soberania absoluta, coisas que o seu instinto alcanava muito
vagamente atravs de um nevoeiro de ignorncia.
Dias e dias correram. A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e
a primeira vez que o viram, nu, uma bela manh, depois da
baldeao, refestelando-se num banho salgado - foi um clamor! No
havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os braos, o
ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto respeitvel de
msculos, dando uma idia de fora fsica sobre-humana, dominando a
maruja, que sorria boquiaberta diante do negro. Desde ento Bom-
Crioulo passou a ser considerado um "homem perigoso" exercendo
uma influncia decisiva no esprito daquela gente, impondo-se
incondicionalmente, absolutamente, como o brao mais forte, o peito
mais robusto de bordo. Os grandes pesos era ele quem levantava,
para tudo a vinha Bom-Crioulo com seu pulso de ferro, com a sua
fora de oitenta quilos, mostrar como se alava um brao grande, como
se abafava uma vela em temporal, como se trabalhava com gosto.
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Entretanto, o seu nome ia ganhando fama em todos os navios. - Um
pedao de bruto, aquele Bom-Crioulo! diziam os marinheiros. - Um
animal inteiro  o que ele era!
Tinha um forte desejo ainda: suspirava por embarcar em certo navio,
cujo comandante, um fidalgo, dizia-se amigo de todo marinheiro
robusto; excelente educador da mocidade, perfeito cavalheiro no trato
ameno e severo.
Bom-Crioulo conhecia-o de vista somente e ficara simpatizando
imensamente com ele. Demais, o comandante Albuquerque
recompensava os servios de sua gente, no se negava a promover os
seus afeioados. Isso de se dizer que preferia uma sexo a outro nas
relaes amorosas podia ser uma calnia como tantas que inventam
por a... Ele, Bom-Crioulo, no tinha nada que ver com isso. Era uma
questo  parte, que diabo! ningum est livre de um vcio.
Mas, anunciou-se a viagem da corveta, e l Bom-Crioulo deixou o
cruzador para seguir seu novo destino.
Contava ento cerca de trinta anos e trazia a gola de marinheiro de
segunda-classe. Por sua vontade no sairia mais barra fora: em dez
anos viajara quase o mundo inteiro, arriscando a vida cinqenta vezes,
sacrificando-se inutilmente. - Afinal a gente aborrece... Um pobre
marinheiro trabalha como besta, de sol a sol, passa noites acordado,
atura desaforo de todo mundo, sem proveito, sem o menor proveito! O
verdadeiro  levar a vida "na flauta"...
Nessa viagem Bom-Crioulo no foi mais feliz que nas outras. Nomeado
gajeiro de proa, espcie de fiscal do mastro do traquete, a princpio
dera conta irrepreensivelmente de suas obrigaes e podia-se ver o
asseio e a boa ordem que reinavam ali, desde a borla do tope t
embaixo  chapa das malaguetas. Fazia gosto a presteza com que se
efetuavam as manobras. A faina corria sempre na melhor ordem, livre
de acidentes, como se todo o mastro fosse uma grande mquina
movida a vapor, desafiando a gente dos outros mastros.
Agora, porm, de torna-viagem as cousas tinham mudado. O traquete
era um dos ltimos a estar pronto, havia sempre um obstculo, uma
dificuldade: era um cabo que "pegava", um "andarivelo" que se partia
ou cousa que faltava...
- Anda com isso! bradava o oficial do quarto j impaciente.
E s depois de muito tempo  que o Bom-Crioulo anunciava l de cima
do mastaru, com a voz estragada:
- Pronto!
Diziam uns que a cachaa estava deitando a perder "o negro", outros,
porm, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e
indiferente, ds que "se metera" com o Aleixo, o tal grumete, o belo
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marinheirito de olhos azuis, que embarcara no sul. - O ladro do negro
estava mesmo ficando sem vergonha! E no lhe fossem fazer
recriminaes, dar conselhos... Era muito homem para esmagar um!
O prprio comandante j sabia daquela amizade escandalosa com o
pequeno. Fingia-se indiferente, como se nada soubesse, mas conheciase-
lhe no olhar certa preveno de quem deseja surpreender em
flagrante...
Os oficiais comentavam baixinho o fato e muitas vezes riam
maliciosamente na praa d'armas entre copos e limonadas.
Tudo isso, porm, no passava de suspeitas, e Bom-Crioulo, com o
seu todo abrutalhado, uma grande pinta de sangue no olho esquerdo,
o rosto largo de um prognatismo evidente, no se incomodava com o
juzo dos outros. - No lho dissessem na cara, porque ento o negcio
era feio... A chibata fizera-se para o marinheiro: apanhava at morrer,
como um animal teimoso, mas havia de mostrar o que  ser homem!
Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as
grandes afeies, inesperadamente, sem precedentes de espcie
alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira
vez. Esse movimento indefinvel que acomete ao mesmo tempo duas
naturezas de sexo contrrios, determinando o desejo fisiolgico da
posse mtua, essa atrao animal que faz o homem escravo da
mulher e que em todas a espcies impulsiona o macho para a fmea,
sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira
vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante cousa,
nunca homem algum ou mulher produzira-lhe to esquisita impresso,
desde que se conhecia! Entretanto, o certo  que o pequeno, uma
criana de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a,
escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a fora magntica
de um im.
Chamou-o a si, com a voz cheia de brandura, e quis saber como ele se
chamava.
- Eu me chamo Aleixo, disse o grumete baixando o olhar, muito
calouro.
- Coitadinho, chama-se Aleixo, tornou Bom-Crioulo.
E imediatamente, sem tirara vista de cima do pequeno, com a mesma
voz branda e carinhosa:
- Pois olhe: eu me chamo Bom-Crioulo, no se esquea. Quando
algum o provocar, lhe fizer qualquer cousa, estou aqui eu, para o
defender, ouviu?
- Sim senhor, fez o marinheirito levantando o olhar com uma
expresso de agradecimento.
- No tenha vergonha, no: Bom-Crioulo, gajeiro da proa.  s me
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chamar.
- Sim senhor...
- Olhe mais, tornou o negro segurando a mo da pequeno: - Muito
sossegadinho no seu lugar para no sofrer castigo, sim?
Aleixo s fazia responder timidamente: - Sim senhor - com um arzinho
ingnuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garo
pontilhado, e os lbios grossos extremamente vermelhos.
Era filho de uma pobre famlia de pescadores que o tinham feito
assentar praa em Santa Catarina, e estava se pondo rapazinho. Seu
trabalho a bordo consistia em colher cabos e arear os metais, quando
no se ocupava na ronda pela noite.
Bom-Crioulo metia-lhe medo a princpio, e quase o fizera chorar uma
vez porque o encontrara fumando em intimidade com o sota de proa
na coberta. O negro deitara-lhe uns olhos!... Felizmente no aconteceu
nada. Mas da em diante Aleixo foi-se acostumando, sem o sentir,
queles carinhos, quela generosa solicitude, que no enxergava
sacrifcios, nem poupava dinheiro, e, por fim, j havia nele uma
acentuada tendncia para Bom-Crioulo, um visvel comeo de afeio
reconhecida e sincera.
Foi ento que o negro, zelosa da sua nova amizade, quis mostrar ao
grumete o seu grande poder sobre os outros e t onde o levava esse
zelo, esse egosmo apaixonado, esmurrando implacavelmente o
segunda-classe que maltratara Aleixo.
A idia de que Bom-Crioulo sofrera por sua causa calou de tal maneira
no esprito do grumete que ele agora estimava-o como a um protetor
desinteressado, amigo dos fracos...
Quando regressou dessa longa viagem ao sul, estava inda mais forte,
mais vioso e mais homem. Era uma massa bruta de msculos ao
servio de um magnfico aparelho humano. No tocante  disciplina
mudara tambm um pouco: j ningum lhe via certos escrpulos de
obedincia e seriedade, perdera mesmo aquele ar, aquela compostura
de respeito que o fazia estimado pelos oficiais em Villegaignon, e o
distinguia da marinhagem insubmissa e desbriada. A maioria
dominara-o positivamente; aquele carter dcil e tolerante, deixara-o
ele no alto mar ou nas terras por onde andara. Agora tratava com
desdm os superiores, abusando se esses lhe faziam concesses,
maldizendo-os na ausncia, achando-os maus e injustos. Uma cousa,
porm, ele soubera conservar: a fora fsica, impondo-se cada vez
mais aos outros marinheiros, que no ousavam agredi-lo nem
brincando. Sua fama de homem valente alargara-se de modo tal que
mesmo na provncia falava-se com prudncia no "Bom-Crioulo". -
Quem  que no o conhecia, meu Deus? Por sinal tinha sido escravo e
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at nem era feio o diabo do negro...
Do transporte em que fizera sua primeira viagem passou a servir num
cruzador chegadinho da Europa. A a vida no lhe ocorreu muito
calma. O comandante, um Varela, capito-de-mar-e-guerra, severo e
inflexvel como nenhum outro oficial do seu tempo, homem que no
ria nunca, chamou-o a conta um belo dia, e quase o deixou sem fala,
simplesmente porque Bom-Crioulo dera com um remo na cabea de
outro marinheiro por uma questincula de ofcio. Tal foi o seu primeiro
castigo depois de quatro anos de servio. Profundamente magoado,
concentrou-se para reaparecer mandrio e insubmisso, cheio de
ressentimento, no se importando, como dantes, com os seus
deveres, trabalhando "por honra da firma" sem vexame nem sacrifcio.
- "Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer
trabalhasse, quer no trabalhasse. - ... que os pariu!"
E ia se fazendo esquerdo, cuidando mais de seus interesses que de
outra cousa, passando um ms no hospital e outro ms a bordo, ou
em terra, com licena.
3
 calmaria equatorial da vspera sucedera, felizmente, uma virao
fresca e reparadora, crispando a larga superfcie d'gua, enchendo as
velas e dando a todas as fisionomias um aspecto novo de bom humor
e jovialidade.
O cu tinha uma cor azul esverdeada, limpo de nuvens, alto e imenso
na eterna glria da luz... Avezinhas de colo branco acompanhavam a
corveta, pousando n'gua, trfegas e alvissareiras, misturando sua
alegria ruidosa com o surdo marulhar das vagas, num rpido
espanejamento d'asas.
Agora, sim, todos regozijavam com a esperana de chegar breve, em
paz e salvamento,  Guanabara, l onde havia sossego e abastana, l
onde a vida corria suave e cheia de tranqilidade, porque se estava
perto da famlia, defronte da cidade, sem os cuidados de quem anda
no alto-mar... E depois j era tempo! Vinte dias a bordejar
estupidamente, sem ver um pedao de terra, uma ilha sequer,
passando mal como co! J era tempo...
S uma pessoa desejava que a viagem se prolongasse
indefinidamente, que a corveta no chegasse nunca mais, que o mar
se alargasse de repente submergindo ilhas e continentes numa cheia
tremenda, e a velha nau, s ela, como uma cousa fantstica,
sobrevivesse ao cataclismo, ela somente, grandiosa e indestrutvel,
ficasse flutuando, flutuando por toda a eternidade. Era Bom-Crioulo, o
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negro Amaro, cujo esprito debatia-se, como um pssaro agonizante,
em torno dessa nica idia - o grumete Aleixo, que o no deixava mais
pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... - Maldita hora
em que o pequeno pusera os ps a bordo! At ento sua vida ia
correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupaes
incmodas, ora triste. ora alegre  verdade, porque no h nada firme
no mundo, mas enfim, ia-se vivendo... E agora? Agora... hum, hum!...
agora no havia remdio: era deixar o pau correr...
E vinha-lhe  imaginao o pequeno com seus olhinhos azuis, com o
seu cabelo alourado, com suas formas rechonchudas, com o seu todo
provocador.
Nas horas de folga, no servio, chovesse ou casse fogo em brasa do
cu, ningum lhe tirava da imaginao o petiz: era uma perseguio
de todos os instantes, uma idia fixa e tenaz, uma relaxamento da
vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo,
como se ele fora de outro sexo, de possui-lo, de t-lo junto a si, de
am-lo, de goz-lo!...
Ao pensar nisso Bom-Crioulo transfigurava-se de um modo incrvel,
sentindo ferroar-lhe a carne, como a ponta de um aguilho, como
espinhos de urtiga brava, esse desejo veemente - uma sede tantlica
de gozo proibido, que parecia queimar-lhe por dentro as vsceras e os
nervos...
No se lembrava de ter amado nunca ou de haver sequer arriscado
uma dessas aventuras to comuns na mocidade, em que entram
mulheres fceis, no: pelo contrrio, sempre fora indiferente a certas
cousas, preferindo antes a sua pndega entre rapazes a bordo mesmo,
longe das intriguinhas e fingimentos de mulher. Sua memria
registrava dois fatos apenas contra a pureza quase virginal de seus
costumes, isso mesmo por uma eventualidade milagrosa: aos vinte
anos, e sem o pensar, fora obrigado a dormir com uma rapariga em
Angra dos Reis, perto das cachoeiras, por sinal dera pssima cpia de
si como homem; e mais tarde, completamente embriagado, batera em
casa de uma francesa no largo do Rocio, donde sara
envergonhadssimo, jurando nunca mais se importar com "essas
cousas"...
E agora, como  que no tinha foras para resistir aos impulsos do
sangue? Como  que se compreendia o amor, o desejo da posse
animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?
Tudo isto fazia-lhe confuso no esprito, baralhando idias,
repugnando os sentidos, revivendo escrpulos. -  certo que ele no
seria o primeiro a dar exemplo, caso o pequeno se resolvesse a
consentir... Mas - instinto ou falta de hbito - alguma cousa dentro de
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si revoltava-se contra semelhante imoralidade que os outros de
categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o
convs... No vivera to bem sem isso? Ento, que diabo! no valia a
pena sacrificar o grumete, uma criana... Quando sentisse "a
necessidade", a estavam mulheres de todas as naes, francesas,
inglesas, espanholas... a escolher!
Caa em si, arrependido e frio, escrupulizando as cousas, traando
normas de proceder, enchendo-se de uma ternura por vezes lnguida
e piedosa - o olhar erradio no azul inconstil.
O castigo por causa do Aleixo trouxera-lhe outro prejuzo: no mesmo
dia deixou ele o cargo de gajeiro de proa, o que afinal era um
descanso, um alvio de trabalho. Tudo quanto lhe fizessem estava
muito bem feito, contanto que o deixassem no seu canto, no seu
ramerro: nunca pedira favores a ningum.
- Olha, dizia ele ao grumete com uma ironia na voz conselheira: no te
metas com oficiais. So muito bons, muito amigos da gente, enquanto
precisam de ns, s enquanto precisam, mas depois - adeus, hein! -
do-nos com o p no focinho.
Aleixo estava satisfeitssimo com a vida que ia levando naquele cu
aberto da corveta, querido, estimado por todos, invejado por meia
dzia. Nada lhe faltava, absolutamente nada. Era mesmo uma espcie
de principezinho entre os camaradas, o "menino bonito" dos oficiais,
que o chamavam de "boy". Habituando-se depressa quela existncia
erradia, foi perdendo o acanhamento, a primitiva timidez, e quem o
visse agora, lesto e vivo, acudindo  manobra, muito asseado sempre
na sua roupa branca, o bon de um lado, a camisa um poucochinho
decotada na frente, deixando ver a cova do pescoo, ficava lhe
querendo bem, estimava-o deveras. Essa metamorfose rpida e sem
transio perceptvel, foi obra de Bom-Crioulo, cujos conselhos
triunfaram sem esforo no nimo do grumete, abrindo-lhe na alma
ingnua de crianola o desejo de conquistar simpatias, de atrair sobre
a sua pessoa a ateno de todos.
Gabando-se de conhecer "o mundo", Bom-Crioulo cuidou primeiro em
lisonjear a vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que
comprara no Rio de Janeiro - "para que ele visse quanto era bonito". O
pequeno mirou-se e...
sorriu, baixando o olhar. - Que bonito o qu!... Uma cara de carneiro
mocho! - Mas no abandonou o trastezinho, guardando-o com zelo no
fundo da trincheira, como quem guarda um objeto querido, uma
preciosidade rara, e todas as manhs ia ver-se, deitando a lngua fora,
examinando-se cuidadosamente, depois de ter lavado o rosto.
Bom-Crioulo compreendeu o efeito da experincia e tratou de
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completar a "educao" do marinheiro. Ensinou-lhe como se dava lao
na gravata... (gravata no, dizia ele, isso no se chama gravata,
chama-se leno...); aconselhou-o que nunca usasse o bon no meio da
cabea: - Um marinheiro deve usar o bon de lado, com certa graa...
E a camisa? - Oh, a camisa devia ser um bocadinho aberta para
mostrar a debaixo, a de meia. O hbito faz o monge.
O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem procurar a razo de
todo esse esmero. Via marinheiros imundos, mal vestidos, cheirando a
suor, mas eram poucos. Havia os que at usavam essncias no leno e
leo no cabelo.
No fim de alguns dias Aleixo estava outro e Bom-Crioulo contemplavao
com esse orgulho de mestre que assiste ao desenvolvimento do
discpulo.
Um belo domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme
branco, segundo a tabela, o grumete foi o ltimo a subir para a
mostra. Vinha irrepreensvel na sua toilette de sol, a gola azul dura de
goma, calas boca-de-sino, bon de um lado, coturnos lustrosos.
Bom-Crioulo, que j estava em cima, na tolda, assim que o viu
naquela pompa, ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma
asneira. Seu desejo era abraar o pequeno, ali na presena da
guarnio, devor-lo de beijos, esmag-lo de carcias debaixo do seu
corpo. - Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje. Esta
mesmo apto! Ento o espelhinho sempre servira, hein?
E com um gesto rpido, nervoso, disfarando a concupiscncia:
- Bonitinho!
O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d'alto a baixo,
risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra.
Depois de terminada a leitura do regulamento, feita a revista, Bom-
Crioulo chamou-o  proa, e entraram numa longa palestra, deliciosa
para o negro a julgar pela expresso cada vez mais fulgurante de sua
fisionomia.
O mar estava relativamente calmo, apenas eriado por uma virao
branda que ameigava o mormao. Nuvens aglomeravam-se para o sul,
crescendo em bulces pardacentos, como impelidas pela mesma fora,
longe ainda, rente com o horizonte. Em cima, no alto do grande
hemisfrio que a luz do meio dia incendiava, o azul sempre o azul
claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e
misterioso... Parecia que se estava muito perto de terra, porque no
mesmo horizonte da corveta ia passando uma velinha triangular de
jangada, microscpica e fugitiva. Pela alheta de boreste vinha-se
chegando tambm o vulto sombrio de um grande vapor de dois canos.
Bom-Crioulo e Aleixo conversavam  sombra da bujarrona, lado a
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lado, indiferentes  alegria dos outros marinheiros, cuja ateno
volvia-se agora para o transatlntico. Todos, menos os dois, queriam
saber de que nacionalidade era o "bruto". Uns afirmavam que era
ingls, por causa do tamanho; outros viam na cor dupla das chamins
o distintivo das Messageries Maritimes: devia ser o Equateur ou o
Gironde - um dos dois. Faziam-se apostas, enquanto o monstro se
aproximava silenciosamente e a jangadinha sumia-se pouco a pouco...
- Mas, olhe, voc no queira negcio com outra pessoa, dizia Bom-
Crioulo. O Rio de Janeiro  uma terra dos diabos... Se eu o encontrar
com algum, j sabe...
O rapazinho mordia distraidamente a ponta do leno de chita azulescuro
com pintinhas brancas, ouvindo as promessas do outro,
sonhando uma vida cor-de-rosa l nesse Rio de Janeiro to falado,
onde havia uma grande montanha chamada Po d'Acar, e onde o
imperador tinha o seu palcio, um casaro bonito com paredes de
ouro...
Tudo avultava desmesuradamente em sua imaginao de marinheiro
de primeira viagem. Bom-Crioulo tinha prometido lev-lo aos teatros,
ao Corcovado (outra montanha donde se avistava a cidade inteira e o
mar...),  Tijuca, ao Passeio Pblico, a toda parte. Haviam de morar
juntos, num quarto da rua da Misericrdia, num comodozinho de
quinze mil-ris onde coubessem duas camas de ferro, ou mesmo uma
s, larga, espaosa... Ele, Bom-Crioulo, pagava tudo com o seu soldo.
Podia-se viver uma vida tranqila. Se continuassem no mesmo navio,
no haveria cousa melhor; se, porm, a sorte os separasse dava-se
jeito. Nada  impossvel debaixo do cu.
- E no tem que dizer isto a ningum, concluiu o negro. Caladinho:
deixe estar que eu toco os paus...
Nesse momento o transatlntico defrontava com a corveta, iando a r
a bandeira inglesa, uma grande leno de tabaco, encarnado, e
saudando com trs guinchos medonhos o navio de guerra, cuja
bandeira tambm flutuava na popa, verde e ouro.
Um mundo de gente movia-se na proa do ingls, decerto imigrantes
italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante,
em uniforme branco, chapu de cortia, no passadio, empunhando o
culo. Lenos acenavam para a corveta que ia ficando atrs, toda em
panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua
derrota, sozinha no meio do mar, desolada e lgubre. Os marinheiros
tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues  labuta,
esperando o rancho das quatro horas.
A montanha de nuvens que h pouco erguia-se fantasticamente l
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longe, ao sul, alastrava o cu, aproximando-se cada vez mais, cor de
chumbo, tempestuosa, desdobrando-se em contornos de feies
bizarras, como uma barreira enorme que de repente se levantasse
entre a corveta e o horizonte. Meio encoberto j, o sol coava sua luz
triste atravs das nuvens, irisando-as de uma faixa multicor e
brilhante, espcie de aurola, que descia para o mar.
O aguaceiro estava iminente.
- Obra dos joanetes e sobres! gritou o oficial de quarto.
A essa voz o movimento foi geral. Imediatamente soaram apitos e a
tolda encheu-se de marinheiros e oficiais, que surgiam das escotilhas
num alvoroo, correndo, empurrando-se. A figura do guardio
Agostinho destacava  proa, calma e solene, medindo a mastreao.
- Arria, carrega!
Trilaram de novo os apitos num desespero de manobra aodada:
avalanches de marinheiros precipitaram-se de um bordo e doutro,
alando os cabos, atropelando-se em correrias de horda selvagem,
batendo os ps, ao barulho dos moites que chiavam como carro de
bois na roa.
- Agenta o leme! avisava o oficial todo embuado na sua capa
impermevel.
O tempo escurecera completamente, e a ventania refrescando,
esfuziava na mastreao de modo sinistro, com a fora extraordinria
de tits invisveis. Mar e cu confundiam-se na escurido, formando
um s conjunto negro em torno da corveta, abarcando-a em todos os
sentidos, como se tudo ali dentro fosse desaparecer debaixo das guas
e das nuvens... Passavam grandes ondas altaneiras, rugindo sob a
quilha, danando uma dana medonha e vertiginosa na proa, cada vez
que o navio mergulhava o bojo com risco de abrir pelo meio... Chuva
copiosssima alagava o convs obrigando os marinheiros a se
arregaar, encharcando as pilhas de cabo, numa baldeao geral e
inesperada.
A corveta ficara somente em gveas e mezena, e corria, agora, sobre
o mar, como se fosse um simples iatezinho de recreio, leve, enfunada,
cavalgando as ondas - a bordas quase rente com a gua...
Que orgulho para o oficial de quarto! Como ele sentia-se bem naquele
momento, debaixo de seu sueste, molhado t  ponta dos ps, todo
olhos para que o navio no sasse fora do rumo, cheio de
responsabilidade, calmo no seu posto, enquanto os outros
descansavam na praa d'armas! De vez em quando olhava para a
popa e via, com grande jbilo d'alma, a larga esteira de espuma que a
corveta ia deixando atrs. Sentia-se forte, sentia-se homem! -
Decididamente a marinha , por excelncia, uma escola de coragem!
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pensava.
Durou hora e meia o aguaceiro, uma chuva cerrada e insistente de
revs, que parecia no acabar mais. O cu abriu-se de repente, claro e
azul; a luz tornou a iluminar os horizontes; e pouco a pouco foram
desaparecendo os ltimos vestgios da "brincadeira", como dizia,
depois, o tenente Souza, o da calmaria, que entrava de quarto.
O vento, porm, continuava rijo, aoitando os cabos, fustigando a
superfcie d'gua, gemendo tristemente salmodias de violoncelo
fantstico, em lufadas que faziam estremecer todo o navio.
Dez milhas, acusava a barquinha, dez milhas por hora.
- Cuidado com o leme!
Marinheiros vassoiravam o convs, enquanto outros iam passando o
lambaz onde j no havia gua. De cima, da tolda, ouvia-se a voz dos
oficiais conversando na bateria, sentados por ali numa desordem
grotesca, fumando, rindo... O comissrio, um de suas longas, magro,
estudava clarinete, embaixo, na praa d'armas, com admirvel
pacincia, equilibrando-se. A chuva reanimara-os a todos, oficiais e
marinheiros, desentorpecendo-lhes o corpo.
Bom-Crioulo, cansado da faina, descera  coberta, e conversava
tambm com Aleixo, de quem s se separava na hora do servio.
A umidade, o frio que entra pelas escotilhas, aquele ambiente glacial
comunicava-lhe um desejo louco de amor fsico, um enervamento
irresistvel. Unido ao grumete num quase abrao, a mo no ombro de
Aleixo que, quele contacto, experimentava uma vaga sensao de
carcia, o negro esquecia todos os seus companheiros, tudo que o
cercava para s pensar no grumete, no "seu bonitinho" e no futuro
dessa amizade inexplicvel.
- Tiveste muito medo?
- De qu?
- Do tempo...
- No, nem por isso.
E Aleixo aproveitou o ensejo para narrar rum caso de vento sul em
Santa Catarina: - Tinham sado, ele e o pai, numa canoa de pesca,
assim pelo meio-dia. De repente o mar comea a encrespar, o vento
desaba... e agora? Estavam sozinhos perto da ilha dos Ratones dentro
de uma canoa que era ver uma casquinha de noz. O velho, coitado,
no teve dvida, no! puxou pelo remo: - vuco, te vuco..., vuco, te
vuco...- Segura-te, meu filho! E o vento cada vez mais forte, zunindo
no ouvido que nem o diabo. Mas veio uma rajada de supeto, um
golpe de vento medonho, e quando ele, Aleixo, quis agarrar-se ao pai,
era tarde: a canoa emborcou!
- Emborcou?
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- Emborcou de verdade, pois ento? Sei bem que fui ao fundo e voltei
 tona. A perdi o sentido... quando acordei estava na praia, so e
salvo, graas a Deus!
- Assim mesmo foste feliz, disse o negro com interesse. Podias morrer
afogado...
Bom-Crioulo tambm quis contar sua histria, e a conversa prolongouse
t ao anoitecer, quando todos subiram par a distribuio do servio.
Em vez de abrandar, o sueste soprava com mais fora, duro e tenaz,
ameaando levar tudo quanto era cabo e pano. A corveta, o "velho
esquife", como a chamavam, ia numa vertigem por aqueles mares,
arfando suavemente, oscilando s vezes, quando o vagalho era
maior, com os seus dois faris de cor - o encarnado a boreste, o verde
a bombordo - e a lanterninha do traquete, plida e microscpica no
alto do estai da giba.
Sempre em gveas e mezena, vento em popa, grande e sombria na
noite clara, espectral e silenciosa, ela voava desesperadamente
caminho da ptria.
A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princpio, depois fria e
opalescente, misto de nvoa e luz, alma da solido, melancolizava o
largo cenrio das ondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essa
luz ideal que penetra o corao do marinheiro, comunicando-lhe a
saudade infinita dos que navegam.
E nada de serenar o vento!
Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Cousa talvez de um dia
mais...
Enquanto no chegava a hora triste do silncio oficial, a hora do sono,
que se prolongava t o romper d'alvorada, marinheiros divertiam-se 
proa, cantando ao som de uma viola chorosa, numa toada sertaneja,
rindo, sapateando, a ver quem melhor improvisava modinhas de p
quebrado, "cantigas do mato"... - No se perdia um luar como aquele!
Tinham trabalhado muito: era preciso folgar tambm. Deitados no
convs, de ventre para o ar, outros em sentido contrrio, queixos na
mo - um sentado pacatamente, aquele outro de pernas cruzadas
fumando - todos em plena liberdade, formavam roda em cima do
castelo, enquanto era cedo.
O oficial do quarto passeando, passeando, escutava-os enternecido,
cheio de contemplao por aquela pobre gente sem lar nem famlia,
que morria cantando, longe de todo carinho, s vezes longe da ptria,
onde quer que o destino os conduzisse. Aquelas cantigas assim rudes,
assim improvisadas, quase sem metro e sem rima, tinham, contudo, o
sabor penetrante dos frutos naturais e o misterioso encanto de
confisses ingnuas... Fazia bem ouvi-las, como que o corao
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dilatava-se numa hipertrofia de saudade terna e consoladora.
Deix-los cantar, os pobres marinheiros, deix-los esquecer a vida
incerta que levam - deix-los cantar!...
Geme a viola, solua uma alma em cada bordo; ressoam cantares em
desafio no silncio infinito da noite clara...
O tempo voa, ningum se apercebe das horas, ningum se lembra de
dormir, de fechar os olhos  paisagem translcida e fria do luar
tropical varrida pelo vento sul. Misterioso instrumento essa viola, que
fazia esquecer as agruras da vida, embriagando a alma, tonificando o
esprito!
Bom-Crioulo no tomou parte no folguedo. - Estava cansado de ouvir
cantigas: fora-se o tempo em que tambm gostava de fazer seu pde-
alferes, danando o baio, fazendo rir a rapaziada.
E quando a sineta de proa badalou nove horas, viram-no passar
esgueirando-se felinamente, sobraando a maca. Ia depressa,
furtando-se  vista dos outros, mudo, impenetrvel, sombrio...
Embarafustou pela escotilha, escadas abaixo, e sumiu-se na coberta.
Que iria ele fazer? Algum crime? Alguma traio? - Nada: Bom-Crioulo
tratava de se agasalhar como qualquer mortal, o mais comodamente
possvel. - L em cima fazia um arzinho de gelo, caramba! A coberta
sempre era um pouco mais quente. O seguro morreu de velho...
Abriu a maca, estendeu-se sobre o convs cautelosamente, com mos
de mulher, examinou o lenol, e, sacando fora a camisa de flanela
azul, deitou-se com um largo suspiro de conforto. - Ah! estava como
queria. Boa noite!...
Nem uma voz rompia o silncio regulamentar, seno a do oficial, de
hora em hora:
- Barca!
Ventava forte ainda.
O convs, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de
um acampamento nmade. A marinhagem entorpecida pelo trabalho,
cara numa sonolncia profunda, espalhada por ali ao relento, numa
desordem geral de ciganos que no escolhem o terreno para repousar.
Pouco lhe importavam o cho mido, as correntes de ar, as
constipaes, o beribri. Embaixo era maior o atravancamento. Macas
de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre as outras,
encardidas como panos de cozinha, oscilavam  luz moribunda e
macilenta das lanternas. Imagine-se o poro de um navio mercante
carregado de misria. No intervalo das peas, na meia escurido dos
recncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um
odor nauseabundo de crcere, um cheiro acre de suor humano diludo
em urina e alcatro. Negros, de boca aberta, roncavam
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profundamente, contorcendo-se na inconscincia do sono. Viam-se
torsos nus abraando o convs, aspectos indecorosos que a luz
evidenciava cruelmente. De vez em quando uma voz entrava a
sonambular cousas ininteligveis. Houve um marinheiro que se
levantou, no meio dos outros, nu em plo, os olhos arregalados,
medonho, gritando que o queriam matar. No fim de contas o pobrediabo
era vtima de um pesadelo, nada mais. Tudo voltou ao silncio.
E l cima, no passadio, o oficial de quarto, vigilante e imperturbvel,
de hora em hora:
- Barca!
Havia um rebulio ligeiro; o guardio apitava acordando a gente de
servio: - Levanta, levanta! olha a barca!... - e as horas iam correndo
assim, monotonamente.
Bom-Crioulo estava de folga. Seu esprito no sossegara toda a tarde,
ruminando estratagemas com que desse batalha definitiva ao
grumete, realizando, por fim, o seu forte desejo de macho torturado
pela carnalidade grega.
Por vezes tinha querido sondar o nimo do grumete, procurando
convenc-lo, estimulando-lhe o organismo, mas o pequeno fazia-se de
esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos
carinhos do negro. - Deixe disso, Bom-Crioulo, porte-se srio!
Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou vencer ou morrer! -
Ou o pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as relaes. Era
preciso resolver "aquilo".
- Aquilo qu? perguntou o rapazinho, muito admirado.
- Nada; o que eu quero  que no te zangues comigo.
E precipitadamente:
- Onde vais dormir esta noite?
- L bem  proa, na coberta, por causa do frio.
- Bem: havemos de conversar.
s nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca
e precipitou-se no encalo do pequeno. Foi justamente quando o viram
passar com a trouxa debaixo do brao, esgueirando-se felinamente...
Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo
rolio, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contactos
impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade
no chegava sequer  meia distncia do esconderijo onde eles tinham
se refugiado. No se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se
por baixo dos cobertores.
Depois de um silncio cauteloso e rpido, Bom-Crioulo, aconchegandose
ao grumete, disse-lhe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservouse
imvel, sem respirar. Encolhido, as plpebras cerrando-se,
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instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convs, o
marulhar das ondas na proa, no teve nimo de murmurar uma
palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de
Bom-Crioulo: o quartinho da Rua da Misericrdia no Rio de Janeiro, os
teatros, os passeios....; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por
sua causa; mas no disse nada. Uma sensao de ventura infinita
espalhava-se em todo o corpo. Comeava a sentir no prprio sangue
impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingnita de ceder
aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse -
uma vaga distenso dos nervos, um prurido de passividade...
- Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.
4
Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso, de uma
transparncia fina de cristal lavado.
Logo pela madrugadinha, antes de apagar-se a ltima estrela, a
corveta "acendera fogos", e demandava o porto, em rvore seca,
impulsionada pela sua velha mquina de sistema antigo - um
estafermo quase imprestvel, porejando vapor, abrindo-se toda em
desconjuntamentos de maquinismo secular.
Enfim se chegava!
Agora cada um tratava de si, de sua roupa, do que trouxera da longa
viagem ao sul, dessa viagem maldita que parecia no acabar nunca.
L estava bem defronte, por bombordo, o Po d'Acar, talhado a
pique, sombrio, ngreme, batido pelas ondas, guardando a entrada; e
mais longe para o sul - termo final de uma espcie de cordilheira
primitiva e bronca - o cocuruto da Gvea, cinzento, dominando o
mar...
- E aquela ilha com ponto branco? perguntou Aleixo curiosamente,
Estava ao lado do Bom-Crioulo, contemplando embevecido a costa
fluminense.
- Aquela ilha  a Rasa, explicou o negro. No vs o farol, aquilo
branco?...
E comeou a descrever o pedao do litoral que se ia desdobrando 
luz, alcantilado e fulgurante, como essa terras lendrias de tamoios e
caramurus... Aquela faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e
estendia o brao por cima do ombro do pequeno), beirando a gua,
chamava-se Marambaia. L adiante, uma montanha quase apagada,
era o Cabo Frio...
E foi indicando, um a um, com exclamaes de patriotismo, os
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acidentes da entrada, os edifcios: as fortalezas de S. Joo no alto, e
de Santa Cruz  beira mar, olhando-se, com sua artilharia muda; a
Praia Vermelha, entre morros; o hospcio; Botafogo...
Tudo aquilo, dizia ele abarcando com um gesto largo, morros e casas,
tudo aquilo  a cidade de Niteri, ouviste falar?
- No ...
- Pois  ali.
Aleixo, de resto, no experimentava grande surpresa. Entre
montanhas havia ele nascido e perto do mar. O entusiasmo de Bom-
Crioulo nem sequer o abalava: fazia outra idia do Rio de Janeiro!
- Mas isto ainda no  a cidade, meu tolo, explicava o negro. Tu no
viste nada por enquanto...
A corveta aproximava-se de Villegaignon...
Bom-Crioulo mal teve tempo de dizer ao grumete: -"Foi ali que eu
comecei..." E desapareceu entre a chusma da marinhagem.
Era quase meio-dia. Escaleres de guerra vinham em direo da
fortaleza, cortando a gua numa carreira macia de out-riggers. Ouviase
a pancada igual dos remos acompanhando a voga.
Ao redor da barca de banhos pairavam botes de comrcio. Lanchas
apitavam cruzando a baa. Navios de guerra imveis, aproados 
barra, faziam sinais, iando e arriando bandeiras. Entre esses havia
uma grande couraado ao lume d'gua, raso, chato e bojudo, com
uma flmula azul no mastro grande.
A corveta diminuiu a marcha, seguindo vagarosa e dominando com
seu porte de nau antiga e legendria, o conjunto de embarcaes que
por ali estacionavam.
Pouco adiante de Villegaignon fez uma parada imperceptvel, tocando
atrs: ouviu-se um grande baque n'gua e logo um rumos de amarras
que se desenrolam, que se precipitam...
- Ora, graas! exclamaram algumas vozes ao mesmo tempo, como se
houvessem combinado fazer coro de alegria.
Entretanto, Bom-Crioulo comeava a sentir uns longes de tristeza
n'alma, cousa que rarssimas vezes lhe acontecia. Lembrava-se do mar
alto, da primeira vez que vira o Aleixo, da vida nova em que ia entrar,
preocupando-o sobre a amizade do grumete, o futuro dessa afeio
nascida em viagem e ameaada agora pelas convenincias do servio
militar. Em menos de vinte e quatro horas Aleixo podia ser transferido
para outro navio - ele mesmo, Bom-Crioulo, quem sabe? talvez no
continuasse na corveta...
Instintivamente seu olhar procurava o pequeno, acendia-se num
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desejo sfrego de v-lo sempre, sempre, ali perto, vivendo a mesma
vida de obedincia e de trabalho, crescendo a seu lado como um irmo
querido e inseparvel.
Por outro lado estava tranqilo porque a maior prova de amizade
Aleixo tinha lhe dado a um simples aceno, a um simples olhar. Onde
quer que estivessem haviam de se lembrar daquela noite fria dormida
sob o mesmo lenol na proa da corveta, abraados, como um casal de
noivos em plena luxria da primeira coabitao...
Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinria de
erotismo, um delrio invencvel de gozo pederasta... Agora
compreendia que s no homem, no prprio homem, ele podia
encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.
Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida
tivera a lembrana de perscrutar suas tendncias em matria de
sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, 
certo, mas tambm no concebia, por forma alguma, esse comrcio
grosseiro entre indivduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria!, o
fato passava-se agora consigo prprio, sem premeditao,
inesperadamente. E o mais interessante  que "aquilo" ameaava ir
longe, para mal de seus pecados... No havia jeito, seno ter
pacincia, uma vez que a "natureza" impunha-lhe esse castigo.
Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer
outro: fizera muito em conservar-se virgem t aos trinta anos,
passando vergonhas que ningum acreditava, sendo muitas vezes
obrigado a cometer excessos que os mdicos probem. De qualquer
modo estava justificado perante sua conscincia, tanto mais quanto
havia exemplos ali mesmo a bordo, para no falar em certo oficial de
quem se diziam cousas medonhas no tocante  vida particular. Se os
brancos faziam, quanto mais os negros!  que nem todos tm fora
para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...
Comeou a faina de arriar escaleres, uma lufa-lufa barulhenta e
ensurdecedora, um incessante rumor de cabos e moites, de vozes e
apitos, confundindo-se em algaravia de mercado pblico, ressoando
clamorosamente no silncio da baa.
Em torno da corveta agitava-se uma multido de escaleres e lanchas
conduzindo oficiais de marinha e senhoras, que acenavam para bordo
- aqueles em uniforme de "visita", espada e luva branca, afetando
autoridade, aprumando-se no paineiro com essa desenvoltura natural
dos homens do mar; aquelas em toilletes de vero, muito rubras do
sol.
Houve um momento de geral precipitao, em que todos procuravam
subir a escadinha do portal, investindo a um tempo, quando a visita
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sanitria ps-se ao largo. - Atraca da! gritava uma voz. - Larga a
canoa! bradava a outra. - Ciando  r! - Abre de proa! - Rema avante!
Ningum se compreendia no tumulto.
Da a apouco, porm, foi-se restabelecendo a ordem, todo aquele
alvoroo desapareceu e ouvia-se apenas a voz dos marinheiros
conversando. Foi ento que atracou um escaler coma bandeira inglesa,
e um oficial ruivo, de suas, muito parecido com o rei Guilherme, da
Alemanha. Era o comandante do Ironside, cruzador britnico.
Austero, hermeticamente abotoado, subiu e desceu logo, sem se
voltar, pisando forte nos degraus da escadinha.
Bom-Crioulo que se debruara na amurada, assim que o viu saltar no
escaler: - Ingls bruto! murmurou entre dentes, e ficou-se com sua
indignao, olhando a gua calma... Ele ali estava, enfim, na baa do
Rio de Janeiro, depois de uma ausncia de seis longos meses!
Precisava ir  terra naquele mesmo dia para arranjar o negcio do
quarto da Rua da Misericrdia, antes que o pequeno se arrependesse;
tinha umas compras a fazer...
Mas, havia ordem para no desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a
guarnio passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e
sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras
rudimentares. - Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para
um desgraado cumprir todas as ordens. E no as cumprisse! Golilha
com ele, quando no era logo metido em ferros... Ah! vida, vida!...
Escravo na fazendo, escravo a bordo, escravo em toda a parte... E
chamava-se a isso de servir  ptria!
Anoiteceu. Noite estrelada, cheia de silncio, profundamente calma e
reparadora. A guarnio da corveta dormia sem abalos um sono
tranqilo e delicioso de oito horas, ao ar livre, sobre o convs
desbastado.
Bom-Crioulo nem sequer pensou em Aleixo: estava incapaz de trocar
palavra, sucumbido pela canseira, o corpo mole reclamando conforto,
o esprito parado; todo ele sem nimo para cousa alguma. Trabalhara
brutalmente; no havia resistir  fadiga. Momentos h em que os
prprios animais caem extenuados... Deitou-se a um canto, longe de
todos, e adormeceu imediatamente num sono catalptico. Ao primeiro
toque d'alvorada espreguiou-se, abrindo os olhos com surpresa, e
sentiu-se alagado. - Oh! ... - Passou a mo no lugar mido, tateando,
e verificou, cheio de indignao, cheio de tdio, com um gesto de
nusea, a irreparvel perda que sofrera inconscientemente durante o
sono - um verdadeiro esgotamento de lquido seminal, de foras
procriadoras, de vida, enfim, que "aquilo" era sangue transformado em
matria! Se ao menos tivesse gozado... Mas no sentira nada,
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absolutamente nada, mesmo em sonho! Dormira toda a noite como
um porco, e o resultado ali se achava no lenol - quase um rio de
goma prolfica!
E triste, desesperado, maldizendo a natureza na linguagem torpe das
gals, ergue-se e foi juntando a roupa de cama bruscamente,
atabalhoadamente, como se algum houvesse concorrido para a sua
"desgraa".
Entrou pelo dia com ares de quem no quer se incomodar, o
semblante carregado numa sombria expresso de aborrecimento,
falando pouco e em tom grosseiro, ameaando: - que o deixassem,
que o deixassem; no queria brincadeira; ainda rachava a cabea
dum!
Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque
sabiam que "o negro era meio doido".
 tarde, porm, esse estado nervoso amainou, graas ao Aleixo que
lhe fora perguntar, com certo interesse e com uma meiguice na voz de
adolescente, se ele, Bom-Crioulo, estava disposto a ir  terra.
- Por que no? J estava concedida a licena.
- Ah! pensei que tinha se esquecido.
- Qual esquecido! Pois eu no te disse que hoje mesmo havamos de
arranjar nosso ninho?
E muito carinhoso:
- Espero em Deus estrear hoje...
Faltava, entretanto, a licena do grumete. Aleixo no se animava a
pedir que o deixassem ir  terra, com receio de uma negativa. Bom-
Crioulo encorajou-o - No fosse tolo! Isso a gente dizia que voltava
logo, que era um instante, ou ento forjava qualquer histria...
- Dize ao imediato que tens um padrinho rico em terra, uma cousa
assim...
Aleixo criou nimo, e da a pouco voltava muito satisfeito, risonho,
dando pinchos.
- No havia nada como a gente ser um menino bonito! At os oficiais
gostavam...
Bom-Crioulo  que no gostou da pilhria. Ferrou o olhar no pequeno -
hum! hum! - como para o fulminar. Mas o grumete corrigiu
prontamente: - Brincadeira, menino, brincadeira... pois no se podia
brincar?
- Isso no so brinquedos, repreendeu o negro. Eu quando gosto de
uma pessoa gosto mesmo e acabou-se! J lhe disse que ande muito
direitinho...
Vestiram-se e abalaram no escaler das cinco horas, depois da ceia.
- Vamos primeiro tomar um golezinho de jeribita, disse Bom-Crioulo
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ao saltar no cais Pharoux. Aqui mesmo no quiosque ...  preciso
esquentar os rins.
- Eu no quero.
- Hs de tomar nem que seja um copo de maduro.
- Maduro?
- Sim, maduro:  uma bebida muito boa.
Foram andando...
O relgio das barcas marcava seis horas menos um quarto, e a cidade,
mergulhada no crepsculo, adormecia lentamente, caa pouco a pouco
numa estagnao de praa abandonada, num triste silncio de aldeia
longnqua...
Acendiam-se as luzes e rareavam os transeuntes no Largo do Pao.
Um ou outro retardatrio, em p na sombra, e sujeitos que saltavam
dos bondes em frente  estao das barcas, conduzindo embrulhos. O
velho pardieiro dos Braganas, o sombrio casaro, em que, durante
quase um sculo, a monarquia fez reclamo de suas pratas,
imobilizava-se lugubremente, ermo e fechado aquela hora.
Bom-Crioulo tomou  esquerda, por baixo da arcada do Pao, enfiando
pela rua da Misericrdia, brao a brao com o grumete, fumando um
charuto que comprara no quiosque.
L adiante, nas proximidades do Arsenal de Guerra, pararam defronte
um sobradinho com persianas, de aspecto antigo, duas varandolas de
madeira carcomida no primeiro andar, e l em cima, no telhado, uma
espcie de trapeira sumindo-se , enterrando-se, dependurada quase.
Embaixo, na loja, morava uma famlia de pretos d'Angola; ouvia-se
naquele momento, no escuro interior desse coito africano, a vozeria
dos negros.
-  aqui, disse Bom-Crioulo, reconhecendo a casa, e desaparecendo no
corredor sem luz, que ia ter ao sobradinho. Aleixo acompanhava-o
taciturno, silenciosos, cosendo-se  parede, como quem pela primeira
vez entra num lugar estranho.
- Anda tolo! fez o outro, segurando-lhe o brao. De que tens medo?...
Subiram cautelosos, por ali acima, uma escada triste e deserta, cujos
degraus, muito ngremes, ameaavam fugir sob os ps.
O negro puxou o cordo que pendia da cancela e l dentro, na sala de
jantar, uma campainha fez sinal, timbrando surdamente.
Bom-Crioulo tornou a puxar com fora.
- Quem ? Oh!...
- Sou eu, D. Carolina: tenha bondade.
- J vai...
E com pouco o marinheiro atirava-se nos braos de uma senhora
gorda, redonda e meio idosa, estreitando-a contra o peito,
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suspendendo-a mesmo, apesar de toda a sua gordura, com essa
alegria natural de pessoas que se tornam a ver, depois de um
ausncia.
- Conta-m'l, Bom-Crioulo, anda, entra... Quem  este pequeno?
- Este pequeno?... Por causa dele mesmo  que estou aqui. Depois
conversaremos...
- E tu, como vais, meu crioulo? Dize, conta... Ora, se eu soubesse que
era tu... D c outro abrao, anda!
Abraaram-se de novo, com grande alvoroo, rindo, gargalhando, ela
de avental, muito rechonchuda, o cabelo em duas tranas, partido ao
meio, Bom-Crioulo fazendo-se amvel, cobrindo-a de exclamaes,
achando-a mais gorda, mais bonita, mais moa!...
D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da
Misericrdia somente a pessoas de "certa ordem", gente que no se
fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de
confiana, bons inquilinos, patrcios, amigos velhos... No fazia
questo de cor e tampouco se importava com classe ou profisso do
sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadio, caixeiro de venda, tudo era
a mesmssima cousa! o tratamento que lhe fosse possvel dar a um
inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros.
Vivia de sua casa, de seus cmodos, do aluguelzinho por ms ou por
hora. Tinha o seu homem, l isso pra que negar? Mas, independente
dele e de outros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a
vida com um emprego certo, um emprego mais ou menos rendoso
para garantia do futuro. Isso de homens no h que fiar: hoje com
Deus, amanh com o diabo.
Quando moa, tinha seus vinte anos, abrira casa na rua da
Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros
como a luz do dia, sem ela se incomodar. Uma fortuna de jias, de
ouro e brilhante! J era gorducha, ento: chamavam-na Carola Bunda,
um apelido de mau gosto, inveno da rua...
Depois esteve muito doente, saram-lhe feridas pelo corpo, julgou no
escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pode reerguer-se,
chegando, por desgraa, ao ponto de empenhar jias e tudo, porque
ningum a procurava, ningum a queria - pobre cadela sem dono...
Passou misrias! at quis entrar para um teatro como qualquer cousa,
como criada mesmo. Foi nessa poca, num dia de carnaval (lembravase
bem!), que comeou a melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe
alguns mil-ris para ela fazer de Vnus, no alto de um carro triunfal.
Foi um escndalo, um "sucesso": atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas,
muita palma, presentes, - o diabo! Durante quase um ano s se falou
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na Carola, nas pernas da Carola, na portuguesa da rua do Nncio.
A pobre mulher narrava isso com lgrimas e suspiros de profunda e
melanclica saudade, e repetia: Bom Tempo! Bom tempo!
Esteve duas vezes amigada, tornou a cair doente, foi  Portugal,
regressou ao Brasil, cheia de corpo e de novas ambies, amigou-se
outra vez, e, afinal de contas, depois de muito gozar e de muito sofrer,
l estava na Rua da Misericrdia, fazendo pela vida, meu rico!,
explorando a humanidade brejeira, enquanto o seu "macaco"
trabalhava por outro lado em negcios de carne verde e fornecimento
para os quartis.
De resto, essa aliana com o aougueiro, uma senhor Brs, homem de
grandes barbas e muitos haveres, essa aliana pouco ou nada lhe
rendia, a ela, porque o sujeito era casado e s de ms em ms dava o
ar de sua graa, deixando-lhe a ninharia de cento e cinqenta mil-ris
para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente.
- Tenho quarenta anos de experincia, dizia, quarenta anos e alguns
fios de prata na cabea. Conheo este mundo velho, meu amor; tudo
isso pra mim  misria.
Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele, desinteressadamente,
por um acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta uma faca;
histria de ladres... Era caso at para beijar os ps do marinheiro,
porque nunca vira tanta coragem e tanto desinteresse!
D. Carolina buscava sempre ocasio de recordar o fato, narrando-o
com todas as cores, dando-lhe mesmo umas tintas de paleta
rembrantesca, desfazendo-se em elogios  gente da marinha, gabando
os homens do mar, "uns benfeitores da humanidade".
Uma noite - s ao pensar tinha calafrios! - vinha de assistir ao Drama
no alto-mar, que se representava na Phenix, quando, ao meter a
chave na porte, foi surpreendida por dois indivduos, cuja fisionomia
no pode reconhecer e que lhe pediram os anis e dinheiro que
porventura trouxesse.
Ela, com efeito, alm de um anel de brilhante, lembrana dos bons
tempos! e duas esmeraldas, levava cinqenta mil-ris. Ora, j se
passava de meia noite e a Rua da Misericrdia estava deserta que nem
um cemitrio. Nenhum guarda por ali! Quis abrir a boca e pedir
socorro, mas os gatunos foram dizendo logo que, se ela ousasse
gritar, morria. E brandiram os punhais, duas lminas de bom ao,
tamanho de faces! Ah! mas Deus  grande! Nesse momento ia
passando o vulto de um marinheiro e ela disparou correndo, sobre ele:
- Socorro! Socorro! - Travou-se uma luta. O marujo saltava fugindo
aos punhais e investindo logo, como uma fera, de navalha em punho.
Felizmente (Deus sabe o que faz!) aos gritos de socorro, encheram-se
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as janelas de gente em camisa de dormir, soaram apitos no escuro e a
polcia chegou a tempo de prender os ladres, completamente
desarmados pelo bem-vindo marinheiro. - Qualquer pessoa nos casos
dela faria o que ela fez: abriu cerveja para o seu protetor, que disse
chamar-se Amaro, vulgo Bom-Crioulo, marinheiro de um navio da
esquadra. E, como no sobradinho moravam praas de bordo, Bom-
Crioulo deu-se a conhecer, havendo logo uma intimidade entre ela,
Carolina, e o negro. Palavra d'honra como nunca vira tanta coragem
num homem.
Estimava-o por isso: porque era um marinheiro valente - homem para
quatro!
Bom-Crioulo comeou a freqentar o sobradinho onde iam outros
marinheiros, e da a grande amizade da portuguesa por ele, no que
houvesse outra inteno: ela sabia que o negro no era homem para
mulheres...
- Vamos, conta-m'l essa viagem!
Tinham-se sentado, os trs, numa sala de jantar,  luz do gs. D.
Carolina estufada, muitssimo gorda, cabeceando, sem flego, estava
ansiosa por saber notcias. O negro, de bon no alto da cabea,
recostado familiarmente, acabava o charuto, cuja cinza abria-se de vez
em quando num claro rubro e quente. Aleixo, imvel numa cadeira,
olhava as paredes, examinando o papel do forro, os quadros -
oleografias de carregao figurando assunto de alcova, duas em cada
parede, colocadas simetricamente -, o guarda-loua quase vazio, e
uma coleo de estampilhas de caixa de fsforo armada em leque.
Tudo velho e incolor, poento e maltratado. Respirava-se uma
atmosfera de sebo e cnfora, renovada por uma triste janelinha que
abria para a espcie de rea pertencente  loja.
Bom-Crioulo resumiu em poucas palavras a viagem da corveta: - Seis
meses de estupidez! O Aleixo  que trouxera um pouquinho de alegria
na volta...
E desfiou a histria do grumete.
- Agora D. Carolina vais no arranjar um quartinho, mesmo que seja no
sto, rematou; mas um quartinho sem luxo, para quando viermos 
terra.
- Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a quarentona.
- Como quiser... Marinheiro  gente que dorme aos quatro, aos cinco...
aos cinqenta! Se houvesse uma caminha larga...
- Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O
comodozinho de cima est desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho
que ficavam melhor...
Sempre risonha e trfega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho
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a Bom-Crioulo.
- Ento, j sei que vens outro... Bendita viagem! ou o mar ou as tais
cantridas!...
Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debruado  janela,
cuspia para baixo, para o quintalejo dos africanos.
5
Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, comeou
a experimentar uma delcia muito ntima, assim como um recolhido
gozo espiritual - certo amor  vida obscura daquela casa onde
ultimamente quase ningum ia, e que era o seu querido valhacouto de
marujo em folga, o doce remanso de sua alma voluptuosa. No
sonhava melhor vida, conchego mais ideal: o mundo para ele resumiase
agora naquilo: um quartinho pegado s telhas, o Aleixo e ... nada
mais! Enquanto Deus lhe conservasse o juzo e a sade, no desejava
outra cousa.
O quarto era independente, com janela para os fundos da casa,
espcie de sto, rudo pelo cupim e tresandando a cido fnico. Nele
morrera de febre amarela um portuguesinho recm chegado. Mas
Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau carter, no se
importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se
definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para a compra de
mveis e objetos de fantasia rococ, "figuras", enfeites, cousas sem
valor, muita vez trazida de bordo... Pouco a pouco o pequeno
"cmodo" foi adquirindo uma feio nova de bazar hebreu, enchendose
de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, bzios grosseiros
e outros acessrios ornamentais. O leito era uma "cama de vento" j
muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela
manh, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado "para
ocultar as ndoas".
Durante meses viveu ele uma vida calma, escrupulosamente pautada,
rigorosamente metdica, cumprindo seus deveres a bordo, vindo 
terra duas vezes por semana em companhia de Aleixo, sem dar motivo
a castigos ou recriminaes. At os oficiais estranhavam-lhe o
procedimento, admiravam-lhe os modos. - "Isso  cousa passageira,
insinuava o tenente Souza. Breve temo-lo aqui, bbedo e medonho.
Sempre o conheci refratrio a toda norma de viver. Hoje manso como
um cordeiro, amanh tempestuoso como uma fera. Cousas de carter
africano..."
O grumete, por sua vez, trazia a alma na perptua alegria dos que no
tm cuidados. Em terra ou a bordo, no tinha de que se queixar:
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andava sempre limpo, ningum o via deitado no convs, ou
emporcalhando-se de alcatro  proa. Felizmente o imediato
escolhera-o para o servio de cabo-marinheiro, em ateno  sua
conduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons costumes, amigo
do asseio, obediente e trabalhador. De modo que raro via-se Aleixo
entre a marinhagem. Seu lugar predileto era o passadio ou a r
cosendo bandeiras, tesourando flmulas, aprendendo certos misteres
do ofcio. s vezes tinha palestras com o oficial do quarto, narrando
histrias de Santa Catarina, casos da provncia, do tempo em que ele
era um simples filho de pescador, um pobre menino da beira-mar. Os
outros marinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se os cotovelos
maliciosamente. Havia um guarda-marinha, moo bem educado e
muito democrata, que, uma vez por outra, dava-lhe dinheiro, nqueis
para cigarros. Ele ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de
tosto que "seu guarda-marinha lhe dera". Todos a bordo lhe faziam
festa; o prprio guardio Agostinho, seco e rspido, tratava-o bem,
com branduras na voz. Uma vida regalada!
Em terra, no quarto da Misericrdia, nem se falava! - ouro sobre azul.
Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se  vontade na velha
cama de lona, muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali
perto, sozinhos, numa independncia absoluta, rindo e conversando 
larga, sem que ningum os fosse perturbar - volta na chave por via
das dvidas...
Um cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro.
Porque Bom-Crioulo no se contentava em possu-lo a qualquer hora
do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia
dele um escravo, uma "mulher-a-toa" propondo quanta extravagncia
lhe vinha  imaginao. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse
nu, mas nuzinho em plo: queria ver o corpo...
Aleixo amuou: aquilo no era cousa que se pedisse a um homem!
Tudo menos aquilo. Mas o negro insistiu: Ningum o levava a
capricho:- Ou bem que somos ou bem que no somos... - Que asneira!
fez o grumete. Por-se agora nu em plo defronte do Bom-Crioulo !
Est visto que tinha vergonha.
- Vergonha de qu? tornou o outro. No s homem como eu? Donde
veio essa vergonha?
- Decerto!...
- Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a roupa...
Havia luz no quarto, uma luz mortia. no topo de uma vela de sebo.
- Nem se v nada... fez Aleixo choramingando, sem lgrimas.
- Sempre h se de se ver alguma cousa...
E o pequeno, submisso e covarde, foi desabotoando a camisa de
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flanela, depois as calas, em p, colocando a roupa sobre a cama,
pea por pea.
Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em
pleno e exuberante nudez, muito alvo, as formas rolias de calipgio
ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra
acariciadora daquele ignorado e impudico santurio de paixes
inconfessveis... Belo modelo de efebo que a Grcia de Vnus talvez
imortalizasse em estrofes de ouro lmpido e estatuas duma escultura
sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numa triste e desolada
baica da Rua da Misericrdia, onde quela hora tudo permanecia
numa doce quietao de ermo longnquo.
- Veja logo... murmurou o pequeno, firmando-se nos ps.
Bom-Crioulo ficou exttico! A brancura lctea e macia daquela carne
tenra punha-lhe frmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um
modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o,
alvoroando-lhe o corao. Nunca vira formas de homem to bem
torneadas, braos assim, quadris rijos e carnudos como aqueles...
Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...
Que beleza de pescoo, que delcia de ombros, que desespero!...
Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fmea...
Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pag daquela nudez
sensual como um fetiche diante de um smbolo de ouro ou como um
artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se,
contudo, abalado at os nervos mais recnditos, at s profundezas do
seu duplo ser moral e fsico, dominado por um quase respeito cego
pelo grumete que atingia propores de ente sobrenatural a seus olhos
de marinheiro rude.
- Basta! ... suplicou Aleixo.
- No, no! Um bocadinho mais...
Bom-Crioulo tomou a vela, meio trmulo, e, aproximando-se,
continuou o exame atencioso do grumete, palpando-lhe as carnes,
gabando-lhe o cheiro da pele, no auge da volpia, no extremo da
concupiscncia, os olhos deitando chispas de gozo...
- Acabou-se! tornou Aleixo depressa, impaciente j, soprando a luz.
Seguiu-se, ento, no escuro, um ligeiro duelo de palavras gemidas 
surdina. e, quando Bom-Crioulo riscou o fsforo, ainda uma vez
triunfante, mal podia ter-se em p.
Tais eram os "desgostos" de Aleixo. Fora disso a vida corria-lhe
admiravelmente, como um leve barco  feio...
D. Carolina, essa tratava-o pelo carinhoso apelido de bonitinho: -"o
meu bonitinho"  como ela dizia, ameigando o sotaque peninsular.
Achava uma graa infinita naquele pedacinho de homem vestido de
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marinheiro, alvo e louro, sempre muito bem penteado, o cabelo
sedoso, os borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a essncia, como
uma rapariga que se vai que se vai fazendo mulher...
O pequeno, muito acessvel a tudo quanto fosse carinho, mostrava-se
reconhecido, no subia para o quarto sem primeiro dar os bons-dias 
portuguesa, abrindo-se com ela com franquezas ingnuas, deixandose
agradar.
Ele, D. Carolina a Bom-Crioulo eram como uma pequena famlia, no
tinham segredos ente si, estimavam-se mutuamente.
Para que vida melhor? Longe de seus pais, numa terra estranha,
encontrava naquela casa um asilo de amor, um paraso de felicidade...
A corveta, dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, entrou para o
dique.
Esgotada a grande bacia de granito, larga e profunda, como um
abismo natural, aberta  picareta nos seio da rocha dura e implacvel,
comearam as obras.
Um martelar contnuo reboava ciclopicamente no interior daquela
sepultura de pedra, como numa forja subterrnea: operrios em
mangas de camisa recomeavam todos os dias a mesma faina brutal
de calafetar o bojo da velha "barcaa", enquanto os marinheiros iam,
por outro lado, raspando o mexilho que o calor apodrecia no fundo
seco do dique. Sufocava, l embaixo, o cheiro forte dos mariscos em
decomposio: subindo como bafos de monturo, resistindo  potassa e
ao cido fnico.
Era justamente em dezembro, ms de epidemias e de insuportvel
calor.
Dir-se-ia que aqueles homens, operrios e marinheiros, no tinham
aparelho respiratrio, no tinham pulmes, ou estavam saturados de
miasmas.
Trabalhavam cantando e martelavam assobiando, com uma
indiferena herica, sem pensar no grande perigo que os ameaava.
Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e ento
no havia remdio: a marinhagem toda precipitava-se para fora, como
um formigueiro alvoroado tapando o nariz: - Foge! foge! olha a febre
amarela!
Navio no dique, marinheiro  solta. O servio diminua, tinha-se mais
liberdade, podia-se folgar  vontade, porque o campo era largo, o
convs estendia-se pela ilha at certa distncia. Dali para terra era um
pulo, no faltavam botes de ganho; breus em quantidade atracavam
prximo ao dique: vivia-se como em qualquer parte.
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De vez em quando: "Seu tenente d licena que eu visite um amigo no
hospital? - V, mas no demore..."
O hospital ficava no topo da ilha, numa eminncia que dava acesso por
uma estrada em ziguezague. Todas as tardes passavam marinheiros
naquela direo, subindo lentamente aos quatro, em procisses: iam
visitar os companheiros, ou eram baixas que vinham da esquadra.
Bom-Crioulo agora multiplicava os passeios  terra. Assduo no
trabalho, nunca se negando a fazer o que lhe ordenavam, cumprindo
suas obrigaes com a mesma pacincia de outrora, quando o futuro
lhe sorria esperanas de vida melhor, reabilitava-se a olhos vistos de
umas tantas falcatruas que cometera em viagem. O imediato fazia-lhe
concesses prevenindo-o que "tomasse cuidado, no fosse beber
demasiadamente".
Todo marinheiro trabalhador e disciplinado tinha nele um amigo, um
verdadeiro pai: a questo era andar direitinho, "portar-se como
gente".
E Bom-Crioulo compreendendo isso, fazia o possvel para o no
descontentar, trabalhando sempre que havia servio, de cara alegre,
sem constrangimento, na certeza de ir  terra.
Um dia sim outro no ei-lo no seu quarto da Rua da Misericrdia, todo
entregue ao descanso, livre, completamente livre de incmodos e
obrigaes.
No esquecia de beber seu golito de "conhaque brasileiro", mas sabia
se conter evitando excessos. De resto, era to calma sua vida, corrialhe
a existncia to doce, to suave, que ele at estranhava.
Ultimamente comeou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longe
de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer
esforo, vinha-lhe uma sonolncia profunda, uma vontade de estirar o
corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos... Os
prprios companheiros notavam certa mudana em sua fisionomia: -
Ests magro,  Bom-Crioulo, que diabo  isso?
- Eu, magro?... e passava a mo no rosto examinando-se. Estarei
doente?
- Alguma crioula, hein?
- Qual crioula!
Um dia consultou ao grumete:
- Achas que estou emagrecendo?
Aleixo tambm foi de parecer que sim, mas "era pouca cousa".
Bom-Crioulo no se importou: foi continuando a viver tranqilamente,
ora a bordo, ora em terra, numa grande paz de esprito, vendo crescer
a seu lado o Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de
certos rgos, o desabrochar da segunda idade, como quem estuda a
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evoluo de uma flor curiosa.
Sua amizade ao grumete j no era lbrica e ardente: mudara-se num
sentimento calmo, numa afeio comum, sem estos febris nem zelo de
amante apaixonado.
Quase um ano de convivncia fora bastante para que ele se
identificasse absolutamente com o grumete, para que o ficasse
conhecendo, e a convico de que Aleixo no o traa, entregando-se 
fria selvagem de qualquer marmanjo, a certeza de que era
respeitado, a certeza que era respeitado pelo outro, comunicava-lhe
essa tranqilidade confiante de marido feliz, de capitalista zeloso que
traz o dinheiro guardado inviolavelmente.
Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa,
cultivada no alto da Rua da Misericrdia, sofresse o mais leve abalo.
Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
- Vocs acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto! Bom-Crioulo no era tolo
nem nada... Tolo era quem se fiasse nele...
E o negro sorria orgulhoso, com seus dentes de marfim, meio
aguados, como presas de tubaro.
A corveta sara do dique, indo amarrar numa bia por trs do morro de
S. Bento com fronte ao Arsenal.
Em todo caso sempre era mais perto de terra que no poo, no
ancoradouro dos navios de guerra, onde a gente no tinha liberdade.
Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notcia de que estava
nomeado para servir noutro navio - um de ao, muito conhecido pelo
seu maquinismo complicado e pela sua formidvel artilharia; belo
conjunto de foras navais, que fazia desse couraado uma dos mais
poderosos do mundo.
Bom-Crioulo desapontou: -... que os pariu! Nem se tinha tempo de
conhecer bem os navios: hoje num, amanh noutro... At parecia
brincadeira!"
E furiosos, amarrando o saco de lona, trombudo:
- Por isso  que um marinheiro fica relaxado: por isso...
Enquanto os outros passavam e tornavam a passar de popa  proa,
tranqilos, no seu descanso, ele, somente porque era uma boa praa,
l ia para o couraado - aquele diabo de ferro, aquele monstro, sem o
Aleixo, sem o seu Aleixo... Vivera tantos meses ali a bordo da corveta
mais o pequeno e agora, de repente, sem qu nem para qu: -
Passe... Era mesmo uma perversidade!
Mas, Deus  grande! pensava Bom-Crioulo . Deus sabe o que faz: a
gente no tinha remdio seno obedecer calada, porque marinheiro e
negro cativo, afinal de contas, vem a ser a mesma cousa.
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Aleixo consolava-se, resignado: pacincia, homem, o mundo no se
acabava. Sempre haviam de se ver, que diabo! Para isso  que tinham
alugado quarto. Um dia sim outro no podiam se encontrar do mesmo
modo em terra...
- Agora v l se vais fazer alguma... preveniu o negro.
Renasciam-lhe os zelos; aquela separao brusca e inesperada
irritava-o, acordando no fundo de sua alma um egosmo exacerbado,
uma desconfiana vaga no futuro. -  verdade que o grumete j no
era uma criana para se deixar iludir, mas, meu amigo, podia o rapaz
se entusiasmar por algum oficialzinho bonito, e, adeus, Bom-Crioulo!...
Com o esprito cheio de apreenses, o olhar triste e a face carrancuda,
estreitou ao peito seu querido Aleixo, e, sem proferir palavra, mudo na
sua tristeza, como um preso que deixa uma priso para entrar noutra,
viu desaparecerem os mastros da corveta e a sombra do grumete que
lhe acenava ao longe, na penumbra crepuscular, vaga e nebulosa,
como a prpria saudade.
O couraado l estava encoberto pela ilha, muito grande e solene, com
o seu belo aspecto de casamata flutuante, aproado  mar, respeitvel
e glorioso.
- Rema fora, que  tarde.
E a pequena embarcao, impelida vigorosamente, ia deixando atrs,
sem o saber, a alma de Bom-Crioulo, terna e dolente...
6
No dia seguinte Aleixo encontrou fechada a porta do quarto.
- Oh! Bom-Crioulo no tinha ido  terra, como prometera. - Exigncias
do servio, pensou. No couraado a disciplina era outra; o imediato,
homem feroz, s falava de chibata e golilha. Estava muito satisfeito na
sua corveta assim mesmo velha e triste...
Abriu a janela para entrar luz e comeou a se despir, trauteando
qualquer coisa, o olhar perdido l fora no ar imvel, no azul
coruscante... O calor abrasava. Nenhuma aragem sequer. O sol das
duas horas caa obliquamente, pondo reflexos de ouro sobre os
telhados, vitorioso e torrencial, pulverizando crislitos de brilho raro ao
longe nas vidraarias... Uma opulncia de luz nunca vista!
Aleixo despiu-se, pela primeira vez acendeu um cigarro, deitando-se 
larga na velha cama de lona. - Passa ! Que forno!...
Queria descansar um bocado, esperar Bom-Crioulo t s cinco horas,
dormir uma soneca. Sara de bordo muito cedo porque ajustara com o
negro, e agora no tinha remdio seno esperar naquela pasmaceira,
naquele calor. Enfim, como fizera quarto a noite passada, ia ver se
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conseguia dormir...
No chegou ao fim do cigarro, um detestvel mata-ratos que Bom-
Crioulo esquecera sobre a mesinha, e que abriu-se de todo em sua
mo desajeitada. - No sabia que diabo de gosto o dos fumantes.
Qual! decididamente no se acostumava com o fumo. Vinha-lhe logo a
dor de cabea...
Ps-se a olhar o teto, as paredes, um retrato do imperador, j muito
apagado, que viera na primeira pgina de um jornal ilustrado, preso
em caixilhos de bambu, um cromo de desfolhar, examinando com
ateno o pequeno aposento, os mveis - a mesa e duas cadeiras -,
como se estivesse num museu de cousas raras.
Adormeceu justamente quando soaram duas horas no relgio de D.
Carolina, embaixo, no primeiro andar.
Acordou indisposto, sobressaltado, num banho de suor, a lngua seca -
torcendo-se em espreguiamentos de quem dormiu toda uma noite.
O sol abrandara um pouco e j havia nuvens no alto, quebrando a
monotonia do azul. - Nada; com certeza Bom-Crioulo no vinha mais,
pensou o grumete. Diabo de insipidez!
De resto, o negro no lhe fazia muita falta: estimava-o,  verdade,
mas aquilo no era sangria desatada que no acabasse nunca...
Essa idia penetrou-o com uma lembrana feliz, como um fluido
esquisito que lhe inoculassem no sangue. - Podia encontrar algum
homem de posio, de dinheiro: j agora estava acostumado
"quilo"... O prprio Bom-Crioulo disseram que no se reparavam
essas cousas no Rio de Janeiro. Sim, que podia ele esperar de Bom-
Crioulo? Nada, e, no entanto, estava sacrificando a sade, o corpo, a
mocidade... Ora, no valia a pena!
Saltou da cama e foi se vestindo devagar, assobiando baixinho,
dominado por aquela idia. - Estava aborrecido, muito aborrecido;
precisava mudar de vida...
- D licena?
- Oh! madama...
Era a portuguesa: ainda no tinha visto o "seu bonitinho", dera-lhe
uma saudade...
- Bom-Crioulo no veio hoje?
No , no tinha vindo. E Aleixo contou a paisagem do negro para o
couraado, o desgosto de Bom-Crioulo, a vida de trabalho que o outro
ia levar...
- Coitado! lamentou D. Carolina. Mas h de vir  terra...
- Sim, por que no? Sempre h de vir. No ser tanto como na
corveta...
- Coitado!...
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- Tem a uma cadeira, ofereceu Aleixo. Por que no se senta?
- Que calor, hein? tornou a mulher sentando-se. Temos chuva.
E logo, muito curiosa:
- Vai sair?
- Vou dar uma volta, passei o dia to aborrecido...
- Que falta, o negro, hein? acentuou a portuguesa sublinhando um
risinho, abanando-se com o avental.
Tinha-se sentado, muito vermelha, o casaco arregaado, os ps nus
dentro de uns tamancos de pano com que batia a roupa no quintal.
- No, disse Aleixo, com um desdm na voz. Aquilo j est me
aborrecendo...
- Oh! J?... Muito cedo, homem.
E fraternalmente:
- Pois  uma boa criatura, coitado. Eu, s vezes, tenho-lhe pena.
-  porque madama no sabe quem est ali... Muito bom, mas quando
se zanga, Jesus! chega a meter medo...
- Assim?
- Ora!...
- Pois, meu filho, se eu lhe disser que nunca vi Bom-Crioulo zangado...
- Uma fera!
Aleixo estava defronte do espelho acabando a toilette. O cabelo cheio
d'leo, escorrido e liso, tinha um brilho fugaz de seda preta. Abria-o de
um lado, puxando em pasta sobre a calote esquerda, at quase a
sobrancelha. Era uma de suas grandes preocupaes - o cabelo bem
penteado, mido sempre. Que trabalho para lhe dar jeito!
Desmanchava-o um sem nmero de vezes, tornava a acert-lo, e,
afinal, depois de repetidas tentativas, punha o bon devagar,
jeitosamente.
- Pronto! fez ele dando a ltima demo.
- Gosto de ver um marinheiro assim, elogiou a mulher, erguendo-se
para endireitar a gola do grumete, que estava dobrada. Ningum me
venha falar em homem porco.
E colocando-se diante de Aleixo, os braos em arco e as mos nos
quadris:
- Est mesmo d'encantar, o diabinho! Vai daqui namorar alguma biraia
no Largo do Rocio, aposto!
O efebo soltou uma risada muito sem gosto, olhando-se ainda uma
vez no espelho.
- Qual o qu, madama! Vou daqui ao Passeio Pblico; s nove horas, o
mais tardar, c estou de volta.
- E no me convida?
- Quer ir, vamos...
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- No, obrigada; bom proveito e volte direitinho,  o que eu quero...
Foram saindo.
- Mas, olhe, tornou D. Carolina com resoluo, no alto da escada.
Preciso lhe falar: volte cedo.
- Por que no diz agora?
- No, no: quando voltar; prefiro conversar  vontade.
- Pois sim...  um instante. At logo!
- T loguinho.
E alto, de cima da escada, enquanto o grumete desaparecia no
corredor:
- Cuidado hein?!
Estaca escurecendo: seriam seis e pouco. Na rua j havia luz.
Continuava o calor, um ar abafadio, de subterrneo, sem oxignio,
pesado e asfixiante.
A portuguesa desceu a escadinha do sto, que estalava com o seu
peso, e foi acender o gs da sala de jantar, muito alegre, cantando
uma modinha sentimental l da terra, numa voz lnguida e tremida.
H dias metera-se-lhe na cabea uma extravagncia: conquistar o
Aleixo, o bonitinho, toma-lo para si, t-lo como amantezinho do seu
corao avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dandolhe
tudo quanto fosse preciso: roupa, calados, almoo e jantar nos
dias de folga - dando-lhe tudo enfim.
Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar
marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um crianola
sem barba, que lhe fizesse todas as vontades. Nenhum melhor que
Aleixo, cuja beleza impressionara-a desde a primeira vez que se
tinham visto. Aleixo estava mesmo a calhar: bonito, forte, virgem
talvez...
Arranjava-se perfeitamente, sem que Bom-Crioulo soubesse. Mas
como falar ao grumete, como propor-lhe o negcio? Ele talvez ficasse
ofendido, e podia haver um escndalo...
O verdadeiro era pouco a pouco ir lhe dando a compreender que o
estimava muito, oferecendo-se-lhe pouco a pouco, excitando-o.
Outras mais velhas gabavam-se, por que  que ela, com os seus trinta
e oito anos, no tinha o direito de gozar? Histrias! mulher sempre 
mulher e homem sempre  homem.
Viu-se ao espelho e notou que realmente ainda "prestava servio": -
Qual velha! Nem um p-de-galinha sequer, nem uma ruga - pois isso
era ser velha? Certo que no. L quanto  idade ningum queria
saber. A questo era de cara e corpo... Ora, adeus!...
Comeou a fazer-se muito meiga para o rapazinho, guardando-lhe
doces, guloseimas, passando a ferro, ela prpria, seus lenos,
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gabando-se na presena de estranhos, fingindo-se distrada quando
queria mostrar-lhe a exuberncia de suas carnes - perna, brao ou
seios... Uma ocasio Aleixo vira-a em camisa curta, deitada, com as
pernas de fora; porque os aposentos da portuguesa davam para o
corredor e, nesse dia, ela esquecera de fechar a porta. O grumete
voltou o rosto depressa, todo cheio de respeito, como se aquilo fosse
uma profanao: mas, depois, ao lembrar-se do caso, tinha sempre
uns arrepios voluptuosos, no podia evitar certa quebreira, certo
desfalecimento acompanhado de ereo nervosa...
Nunca mais lhe sara da lembrana aquela cena de alcova: uma
mulher deitada com as pernas  mostra, muito gordas e penugentas -
num desalinho irresistvel, braos nus, cabelo solto. - Devia de ser
esplndido a gente dormir nos braos de uma mulher. A portuguesa
no era mazinha.
Aleixo, porm, estava longe de supor que D. Carolina, aquela D.
Carolina, que o tratava como filho, bondosa e meiga, pretendesse
faz-lo seu amante.
Semelhante idia nunca lhe passara pela imaginao. Via entrar
homens no quarto dela, sabia os amores do aougueiro, mas isso era
l com os outros de barba; o que lhe parecia impossvel, e ele nem
sequer pensava,  que D. Carolina tivesse intenes com um
rapazinho de sua idade, uma criana quase...
- Pronto! fez ele ao voltar do Passeio Pblico.
- Oh! depressa! exclamou a portuguesa, erguendo-se. Venha c, no
meu quarto est mais fresco...
O quarto de D. Carolina ficava justamente por baixo do sto, na
frente da casa, um largo aposento de mulher solteira, onde havia uma
bela cama de casal com travesseiros de renda.
Quando o grumete chegou, ela estava na sala de jantar lendo os
anncios do Jornal do Comrcio,  luz do gs.
- Divertiu-se muito?
- Qual! Fui e voltei logo.
- Por minha causa?
- No, o Passeio  que estava inspido... Pouca gente.
Aleixo parou  porta do quarto como quem receia entrar.
- Entra, filhinho, entra, que isto aqui  nosso, isto aqui  da tua
portuguesinha, no vs?
E, alegre como nunca, foi abrindo as janelas que diziam para a Rua da
Misericrdia, num alvoroo.
Enquanto o pequeno andava fora, ela fizera nova toilette, penteara-se,
mudara a roupa, trocara os tamancos por umas sapatinhas cor de
sangue e colocara os anis, os clebres anis que lhe tinham querido
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roubar: transformara-se completamente.
- Senta, deixa de tolice, filho!
Aleixo sentou-se muito acanhado, com um ar de colegial que pela
primeira vez penetra num lugar suspeito. Morava naquela casa h um
ano e s agora entrava ali, no quarto da portuguesa.
- Bonita sala!
Bonita o qu,  pequeno; ests a debicar, hein? disse a mulher
acendendo o gs, no bico dos ps, rindo. Bonito s tu - tu  que s
bonitinho...
- D. Carolina gosta de caoar com a gente!...
E a portuguesa, sentando-se tambm, alisando-lhe o cabelo com as
mos, rubra de calor:
- Pois  isto, minha flor: o que eu tinha a dizer  que estou apaixonada
por ti!
- Ora!...
- Estou falando srio; no vais dizer a Bom-Crioulo que eu lhe quero
tomar o amigo... Olha que o negro  capaz de estrangular-me...
- J est D. Carolina com brincadeiras...
- No  brincadeira, no, filho, tornou a outra, afetando seriedade.
Quero que durmas hoje, ao menos hoje, com a tua velha...
E foi se derreando sobre os ombros de Aleixo, com uma fingida ternura
de mulher nova.
O pequeno desviava o olhar dos olhos dela, cheio de pudor, um sorriso
fixo na boca sombreada por um buo em perspectiva, muito encolhido
na sua cadeira, sem dizer palavra.
O contato de sua perna com a da portuguesa produzia-lhe um
calorzinho especial, um brando enleio d'alma, uma vaga e deliciosa
canseira no fundo do ser, um esquisito bem-estar.
Por sua vontade ficaria naquela posio eternamente, sentindo cada
vez mais forte a influncia magntica daquele corpo de mulher sobre
os seus nervos de adolescente ainda virgem...
D. Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-lhe
num grande mpeto de fria lbrica, de mulher gasta que acorda para
uma sensao nova...
- Tu no podes comigo, disse tranando a perna sobre o joelho do
Aleixo.
E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude:
- Dize l: ficas ou no ficas?
O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se 
cadeira com as mos ambas, todo trmulo agora, sem sangue no
rosto:
- Fico!
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Ento ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de
gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fria brutal, e
segurando-o pelas ndegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado,
foi dep-lo na cama:
- Pr'a, meu jasmim de estufa, pr'a! Vais conhecer uma portuguesa
velha de sangue quente. Deixa a inocncia pro lado, vamos!...
Bateu a porta e comeou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo,
enquanto ele deixava-se estar imvel, muito admirado para essa
mulher-homem que o queria deflorar ali assim, torpemente como um
animal.
- Anda, meu tolinho, despe-te tambm: aprende com tua velha...
Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo no tinha tempo de coordenar idias. D. Carolina o absorvia,
transfigurando-se a seus olhos.
Ela, de ordinrio to meiga, to comedida, to escrupulosa mesmo,
aparecia-lhe como um animal formidvel, cheio de sensualidade, como
uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao
macho antes que ele prepare o bote...
Era incrvel aquilo!
A mulher s faltava urrar.
E a sua admirao cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a
camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os
seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, at onde chega a animalidade
humana, e, passando o primeiro momento de surpresa, sentiu que
tambm era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina: - Valia
a pena decerto uma noite como aquela!
Acordou cedinho, pela madrugada. Queria ir para bordo no escaler das
compras.
A portuguesa ergue-se, fez caf ali mesmo no quarto, sem despertar
ningum, jubilosa como uma noiva, exultando!
Graas a Deus estava muito conservadinha, no era to velha como se
pensava. Ainda tinha foras para inutilizar muito homem robusto, ol
se tinha!
- E agora j sabes, meu pequerrucho: quando o negro no vier  terra
- um abracinho  Carola. D'hoje em diante quero que me chames
Carola, ouviste?  mais bonito, entre pessoas que se estimam... Carola
e Bonitinho  como nos devemos tratar.
Vinha amanhecendo quando o grumete, ainda bbedo de sono, os
olhos apertados, o passo leve, saiu direto ao Cais dos Mineiros. Estava
muito plido, com grandes olheiras, repetia maquinalmente: - Se
Bom-Crioulo soubesse!... ao mesmo tempo que seu esprito voltava-se
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todo para o sobradinho da Rua da Misericrdia, onde aquela hora D.
Carolina encharcava-se num magnfico banho frio de chuveiro.
- Se fosse possvel no me encontrar mais, nunca mais, com aquele
negro, ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um
grupo de marinheiros, perto do cais.
E a figura da portuguesa, muito gorda e risonha, os dentes muito
alvos, os quadris largos, a face rubra, danava em sua imaginao,
como um sonho diablico.
7
Bom-Crioulo no estava satisfeito no couraado, naquela formidvel
priso de ao, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina - um horror
de trabalho - privava-o de ir  terra hoje sim, amanh no, como nos
outros navios, Ah! mil vezes a corveta. mil vezes! Ao menos tinha-se
liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo no meio de toda gente
desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela vida que
passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e
felicidade!... Era bem certo o ditado: no h bem que sempre dure...
Enchia-se dio contra os superiores: - Uma cfila! Todos a mesma
cousa; faziam do pobre marinheiro um burro... Ningum os entendia. -
Revoltava-se principalmente contra o Quartel-General que o mandara
passar da corveta para o couraado. No lhe custava nada ir ao
ministro, contar uma histria muito grande e pedir, inda que fosse de
joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao hospital,
desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam
enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem
para viver s num deserto...: "-... que os pariu!..."
Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar  bordo: seu nome fora
recomendado ao imediato em bilhete especial: -"Muita cautela com o
Amaro (Bom-Crioulo).  uma praa irrepreensvel quando no bebe,
mas em chupando seu copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos
diabos". Houve logo preveno entre os oficiais.
- Era bom no o deixar ir  terra muitas vezes. Um homem daquele
at metia medo!
E ficou assentado que ele s teria licena um vez por ms. Passou o
primeiro dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um sbado.
- Seu imediato, eu precisava ir  terra, implorou o negro perfilado, a
mo em pala no bon.
- Ainda no, resmungou o oficial, sem prestar-lhe ateno. Quando
chegar sua vez eu direi.
- Mas seu imediato...
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- J lhe disse, no me amole!
Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no convs, mordiscando o
beio. Ia cheio de uma clera muda. jurando vingana talvez... - Ah!
era assim? calculava ele depois, na proa. Havia de mostrar...
E no dia seguinte pela manh ofereceu-se ao guardio para remar no
escaler que ia s compras. Embarcou, sem dar  perceber clculo
algum, e l foi remando na voga, o bon carregado pra frente, muito
srio, teso na sua bancada.
O domingo amanhecia esplndido e preguioso numa soberba
ostentao de azul, fresco e transparente. As montanhas da baa, o
Po d'ucar, os rgos, e, l longe, o Corcovado, sem um floco de
nuvem no topo, desenhava-se na eteral limpidez do ar calmo, davam 
vista uma doce impresso de aquarela.
Bela manh para um brdio sobre a gua. O vulto de um paquete
alemo ia saindo barra fora, impassvel e misterioso... O mastro do
Castelo fazia sinais. Os navios de guerra pareciam dormitar ainda
silencioso e imveis.
Era quase dia...
- Leva! manobrou o patro do escaler. Tinham chegado ao cais. Os
marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os
logo, com um movimento igual, dentro da embarcao.
Da ao mercado era perto. Comearam a atracar os escaleres doutros
navios. Pouco a pouco ia clareando... A praa, entretanto, permanecia
quase deserta ainda; um ou outro galego, homem de ganho, vagava
em torno dos quiosques.
Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de "fazer uma necessidade",
prometendo voltar logo.
- Era um pulo...
Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos
companheiros, estugou o passo em direo  Rua da Misericrdia,
resmungando insultos que ningum ouvia. A porta do sobradinho
estava fechada. Bateu. D. Carolina ressonava. Tornou a bater,
impaciente, dando fortes punhadas na porta.
O caixeiro da padaria defronte, veio espiar quem  que batia com todo
aquele desespero.
- Quem havia de ser? Um negro!...
Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em
suspensrios, com cara de ru, e que se afastou para deixar passar o
marinheiro.
- Bom dia!
- Bom dia! correspondeu o barbaas.
- Quem ? perguntou l de cima a voz abafada da portuguesa.
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- Sou eu, D. Carolina; desculpe a maada.
- Ah!  o Bom-Crioulo? Que maada o qu! Por aqui to cedo?
Ningum o v mais!... A chave est no prego!...
- Obrigado...
E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto,
recebendo em cheio, no rosto, a frescura matinal: - Agora queria ver
se o arrancavam dali. Uma ova! Estava em sua casa, muito bem
escondido. No era nenhum burro de carga!...
Veio-lhe  mente o grumete: - Aleixo ainda se lembraria dele? Sim,
porque neste mundo a gente vive enganada... Quanto mais se estima
uma pessoa, mais essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-
Crioulo , no cara do cu...
Abriu as gavetinhas da mesa, revistou mveis, remexeu papis, como
quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando... O
vidro de leo no estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a
garrafa d'gua Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito
podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no cho, de
borco, ao p do lavatrio de ferro; o assoalho era uma imundcie de
pontas de cigarro e cuspo.
- Eu fao idia! ... murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela
desordem habitual. Eu fao idia!...
Nesse instante o carrilho de S. Jos comeou a bimbalhar os "Sinos
de Corneville", enchendo o espao de uma alacridade sonora e festiva
que multiplicava-se em notas de uma limpidez offenbachiana, como se
fosse um maravilhoso instrumento de cristal suspenso nos ares...
Instintivamente o marinheiro cantarolou o velho trecho da opereta:
Dlingo, dlingo, dlingo,
Dlingo, dlingo, dlo!
No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com mpetos de criana
brejeira, como um pssaro solto... Estranhava-se at! H muito no
amanhecia to bem disposto...
O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca
indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais "republicanos",
porque o velho tinha sentimento e gostava do povo...
Acendeu um cigarro e deitou-se.
- Ah! isso era outra cousa! no lhe fossem falar em navios de guerra:
preferia sua cama, seu bem estar, seu descanso.
Pela janela entrava agora uma rstia de sol, e o carrilho continuava o
seu interminvel estribilho musical...
Dlingo, dlingo, dlingo,
Dlingo, dlingo, dlo!
- Bom-Crioulo,  Bom-Crioulo!
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- Anh!... Que ?
- Acorda rapaz, olha que no tarda meio-dia.
- Meio-dia?
- Sim, pois no vs o sol como vai alto?
D. Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi
acord-lo. Amaro dormia profundamente, com a boca aberta,
estendido na cama, o bon sobre os olhos, um fio de baba escorrendo
pelo queixo, imvel... Pendiam-lhe os braos numa frouxido
cadavrica. A mulher, ao entrar no quarto recuou plida. - Jesus!
estaria morto? O negro, porm, ressonava alto. - Que susto.
Aproximou-se timidamente para o no sobressaltar e, quando ele abriu
os olhos, viu-a, diante de si, muito gorda e risonha, toda em roupa
nova, um avental branco.
- Acorde, seu preguioso! fez ela dando uma palmada na coxa do
negro. Vamos, levante-se, que isto no so horas de dormir.
Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a
manga, perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um
sabor esquisito na boca.
- Ento que foi isso hoje? perguntou a portuguesa...
- Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os braos num
bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licena.
- Que loucura, filho! So capazes de mandar-te prender...
-... que os pariu! No sou escravo de ningum. Fujo quantas vezes
quiser; ningum me probe...
- Modera-te, rapaz.  preciso ir com jeito...
- Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio
ainda no tive descanso. Isso tambm  demais!
- Ora, meu filho, pacincia. Deus h de ajudar...
-  a tal histria: fia-te na Virgem e no corras...
- Vocs l se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do
imperador, como se nunca o tivesse visto.
- Uma cousa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo  terra?
- Veio quinta feira, se no me engano...
E o outro contando os dedos:
- Quinta, sexta, sbado, domingo: ontem era dia dele vir...
- Agora vocs vivem sempre desencontrados. No combinam...
- Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma cousa, ou j
almoaste?
- Nada, vou petiscar ali no frege.
- Manda-se comprar...
- No, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas,
fazer exerccio.
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- Cuidado! Olha algum oficial...
E dirigindo-se para a escadinha:
- Bom, vim apenas te acordar. At logo.
- T logo, madama. Ento o pequeno s veio uma vez, hein?
- Uma vezinha, coitado...
E o negro ficou pensando no grumete, sentado  mesa, de crista cada,
esgravatando maquinalmente a unha com um fsforo - "Aquilo" no ia
bem... Precisava tomar uma resoluo: abandonar o Aleixo, acabar de
uma vez, meter-se a bordo, ou ento amigar-se a com uma rapariga
de sua cor e viver tranqilo. Estava emagrecendo  toa, no comia,
no tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma molstia,
por causa do "senhor Aleixo". Se ao menos pudesse v-lo todos os
dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? No valia a
pena, era cair no desfrute...
E, tomando o bon, com uma expresso de aborrecimento:
- Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanh;
Bateu a porta, deu volta  chave, e saiu por ali fora, palpando os
bolsos. com desespero.
D. Carolina estava para dentro e l ficou estendendo uma roupinha no
coradouro.
Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na
taverna da esquina, ali perto, havia uma aglomerao de gente e cada
transeunte que passava era mais uma curioso, um basbaque. Os
moradores debruavam-se s janelas, esticando o pescoo com uma
interrogao no olhar. Um oficial de bombeiros passou correndo para o
lugar do "acontecimento". Gente punha-se em p nos bondes. O
padeiro, em mangas de camisa, chegou  porta, com um lpis atrs da
orelha, arrastando os chinelos.
Bom-Crioulo sups logo que fosse algum "rolo" e precipitou-se,
abrindo caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava
no cho, babando, o rosto ensangentado, a barba suja de areia, em
contores horrorosas.
Cara de repente, ao sair da venda.
- Tinha bebido muita cachaa, dizia penalizado o taverneiro. Se
soubesse, no teria vendido...
Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquejaram.
- Passa fora, o animal pesava que nem chumbo!
- Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Vocs tambm no prestam pra
nada...
O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as
duas mos e lev-lo ao ombro  Santa Casa de Misericrdia, sem
grande esforo, como se pegasse uma criana.
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Fez-lhe pena ver aquele pobre homem cado ali assim, no meio da rua,
cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo
apertou-lhe o corao, f-lo estremecer, comoveu-o... Talvez fosse
algum pai de famlia, coitado, algum infeliz... Um horror, a tal gota! j
noutra ocasio salvara uma mulher bbeda que ia sendo pisada por
um bonde.
E o portugus da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que
passava casualmente, o dono do aougue, todos gabavam o pulso do
negro.
"- Sim senhor, tinha fora para desancar um burro! - Essa gente do
mar  uma gente perigosa! - Dois guardas no puderam com o
homem, no entanto s o negro fez tudo! - A marinha sempre  a
marinha..."
Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto:
- No senhor, no era tanto assim. C e l ms fadas h... No exrcito
tambm se encontravam homens de pulso, assim como na armada
havia gente fraca, rapazinhos de papelo...
Ningum disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento
reduziu-se a duas ou trs pessoas que ficaram por ali conversando.
Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os
braos, o bon derreado como de costume, a face radiante. - Na
verdade o homem pesava seu bocadinho, mas era uma vergonha dois
guardas no poderem com ele. Olhe que eram dois guardas!
E, dirigindo-se ao vendeiro:
- Uma tera, faz favor...
O portugus, muito amvel, sem despregar os olhos do marinheiro,
encheu a medida. - Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou
sorrindo. Em Portugal...
Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: - Puah!... fez
com repugnncia. - Arre, diabo, que isto  mesmo que beber fogo!
Desatou a ponta do leno, onde costumava trazer o cobre - um triste
leno enxovalhado, com desenhos na margem.
- So os ltimos vintns; resto do soldinho, do miservel soldinho...
Felizmente eu no me aperto enquanto existir uma portuguesa
chamada Carolina...
O bodegueiro piscou o olho: - Ahn, ahn!... Como era fino, hein?...
- Que quer, meu amigo, faz-se pela vida...
Tinha a cabea muito fraca, muito leve: um gole de aguardente. uma
dose insignificante de lquido espirituoso, um martelo de vinho punhalhe
os olhos em brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao crebro. E,
quando bebia demais, em pndega, l uma vez ou outra - santo Deus!
ningum podia com ele: redobrava de fora, no conhecia os amigos,
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insultava a humanidade, ameaando, brandindo o punho fechado,
carregando o bon, gingando o corpo - medonho, terrvel!
Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar
propositalmente. Pouco depois de engolir a cachaa, meio tonto,
empinando-se para no demonstrar fraqueza, mas com a vista
caliginosa e um azedume na lngua, retirou-se da venda sem rumo
certo, para os lados do cais do Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas
em duplicata e rodando em torno de sua cabea, encostando-se 
parede, monologando cousas imperceptveis, transfigurado j.
Confundiam-se-lhe as idias numa turva agitao de quem vai perder
o juzo; os objetos comeavam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade
de cometer loucuras, de se sentar no meio da rua e abrir a boca e
dizer horrores como um alienado.
- Eu daqui vou direitinho, mas  para bordo, murmurava. Hei de
mostrar  canalha! Vou porque quero, porque sou livre!
E batia com fora no peito.
- ... que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade,
agora podem falar! Papagaio de noite no tem olho, como dizia meu
comandante... j no me lembra o nome...
Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armazns
de madeira, todas as casas de negcio, com exceo de rarssimos
cafs, estavam trancadas quela hora dominical.
Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa
marcha lenta de gado que recolhe  tardinha, calados, pensando na
vida...
Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem
prestar ateno  ningum. Mas, ao desembocar no Largo do Pao, um
cachorro vadio comeou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o,
cercando-o. Outros ces vieram se juntar ao primeiro e fez-se logo em
torno do negro um alarido infernal, que aumentava pouco a pouco,
ensurdecedor e azucrinante. Garotos aulavam a canzoada com
assobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. - Ora
quem havia de ser? Quem havia de ser?... O negralho, o marinheiro!
No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos,
equilibrando-se, investindo contra os ces, ameaando-os  pedra,
ganindo insultos: -... que os pariu!"
Viram-no se dirigir para o cais.
-  do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarcao de
guerra imvel sob os remos, ao largo.
Ningum respondeu.
Havia calma no mar. A gua reluzia como ao polido. Abafava!
Defronte, l muito longe, em Niteri, via-se a torre branca de uma
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igreja, pequenina, esguia como um obelisco.
Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto,
amarrados uns aos outros, na lingeta de mar, entre as estaes das
barcas, quietos, modorrentos...
-  do escaler! bradou o negro.
A embarcao no se movia: era como se no houvesse ningum a
bordo. Os marinheiros fingiam-se distrados.
- Cambada de burros! Atraca essa porcaria!
E abriu a boca numa tremenda exploso de improprios, fechando o
punho ameaadoramente, desenrolando todo o vocabulrio imundo e
obsceno das tarimbas contra os companheiros, berrando em alta voz
"que era livre, que havia de fazer, que havia de acontecer!..."
- Infames! No preciso de vocs pra nada! Pra nada!
Mas, ao voltar, deu de ombros com um portugus, que estava a seu
lado rindo tranqilamente, segurando um remo.
- E voc tambm, seu galego; voc est se rindo, porque ainda no
apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo dando um empurro no homem.
O portugus carregou o rosto, medindo o negro d'alto a baixo, sem
dizer palavra.
- E no tem que olhar no, no! Se dvida fao-o beber gua salgada.
- V-s'embora, homem de Deus! murmurou o outro com benevolncia.
V-s'embora...
- O qu?
- Mal vai a cousa...
- O qu, seu galego, o qu?
E "abotoou" o portugus, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o
bon.
- O senhor no me provoque...
- Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo!
O homem perdeu a calma Nos seus olhos fulgurou um claro de raiva,
o sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da mo, e, investindo
para o Bom-Crioulo, quis derrub-lo corpo a corpo, naquele mesmo
instante. Era sujeito baixote, rijo, de bigode fulvo, muito vermelho,
com pintas de sarda.
Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espao entre as duas
estaes martimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvoraada, que
vinha de todos os ngulos da praa numa precipitao de avanada. -
"Rolo! Rolo!"
E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para
o largo, afastando-se daquele ponto insustentvel, onde no se
podiam mover livremente, sem risco de cair n'gua, abraados, corpo
a corpo, enroscados um no outro, qual mais forte - iguais na
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envergadura muscular.
O escaler de guerra tinha se aproximado.
Havia grande rebulio nos botes: o alarma era geral no cais e
imediaes.
- Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros.
Assobios, canzoada, berros: - No pode! no pode! confundiam-se
num alvoroo descomunal, reboando na praa.
De repente, com um safano medonho, Bom-Crioulo separa-se do
portugus e rpido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do cs um objeto:
logo toda gente viu, com espanto, reluzir na mo do marinheiro o ao
de uma anavalha.
-  agora! disse uma voz no meios do povo.
A multido espalhou-se, recuando, abandonando o campo da luta. O
clamor aumentava: - Pega! Pega! no pode!
O portugus, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem,
abalou na carreira; mas o negro, vendo se aproximarem polcias,
brandindo a arma furioso, ameaou:
- Quem for homem, venha!
A figura do "galego" tinha desaparecido: sua clera voltava-se agora
contra o povo e contra a polcia. Ningum ousava se aproximar
daquele homem-fera, cujo olhar fazia medo...
Quatro horas no relgio da estao.
Da a pouco saltou no cais um oficial da marinha. Bom-Crioulo
esperou-o a p firme: - No venha, que leva!
Era um primeiro tenente; acompanhavam-no marinheiros.
- Segurem aquele homem, ordenou, parando  distncia.
- No venha! No venha! exclamou o negro, gingando com a navalha
no ar.
Os homens dividiram-se, trs para cada lado, e marcharam
impavidamente, de prancha desembainhada.
Foi um momento de ansiedade e assombro.
A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de
requintada clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o
impelisse oculta mola de arame. - No venha! No venha!...
Mas, quando, num formidvel arranco, salta  direita, um pulso mais
forte "gruda-o" pela esquerda e Bom-Crioulo, o invencvel Bom-
Crioulo, sente-se agarrado, preso como um animal feroz!
O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem o receio de
agresses, comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado 
beira d'gua por uma onda de curiosos.
Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de
um desespero hidrofbico, insultando, rogando pragas.
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Afinal, l o conduziram  viva fora, e a embarcao deslizou, toda
branca, na baa calma...
8
O comandante do couraado, bela estampa de militar fidalgo,
irrepreensvel e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na
frase tosca de Bom-Crioulo, "falavam-se cousas..."
Um lenda obscura e vaga levantara-se em torno do seu nome,
transformando-o numa espcie de Gilles de Rais menos pavoroso que
o da crnica, cheio de indiferena pelo sexo feminino, e cujo ideal
gensico ele ia rebuscar na prpria adolescncia masculina, entre os
de sua classe.
Calnia, talvez, insinuaes de mau gosto.
Os marinheiros narravam entre si, por noites de luar e calmaria,
quando no tinham que fazer, lendas e histrias muitas vezes forjadas
ali mesmo no fio da conversa...
O comandante, diziam, no gostava de saias, era homem de gnio
esquisito, sem entusiasmo pela mulher, preferindo viver a seu modo,
l com a sua gente, com os seus marinheiros...
E havia sempre uma dissimulao respeitosa, um pigarrear malicioso,
quando se falava no comandante.
Fosse como fosse, ningum o desrespeitava, todos o queriam assim
mesmo cheio de mistrio, com o seu belo porte de fidalgo, manso s
vezes, disciplinador intransigente, modelo dos oficiais.
Bom-Crioulo, porm, nunca o estimara verdadeiramente: olhava-o
com certa desconfiana, no podia se acostumar quela voz untuosa,
quele derretido aspecto protetoral que ele sabia fingir nos momentos
de bom humor. Evitava-o como se evita um inimigo irreconcilivel. Por
qu? Ele prprio, Bom-Crioulo, ignorava. Repugnncia instintiva,
natural antipatia - foras opostas que se repelem...
- Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro
supersticiosamente.
Metido em ferros no mesmo dia do "rolo", a imagem do comandante
brilhou na caligem de sua embriaguez e o perseguiu toda a noite sem
trgua, sem o deixar um instante, ora terrvel, ameaadora,
implacvel, outras vezes, doce, meiga e complacente...
Dormiu essa noite numa sepultura de ferro, espcie de jaula estreita e
sem luz onde s cabia um homem. Trancado ali dentro, imvel, porque
os ps e as mos estavam presos, adormeceu quando os outros
acordavam, ao primeiro toque d'alvorada, quase dia. Durante o sono
viu a figura do portugus inchando para ele com uma faca,
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desafiando-o: "Vem, negro, vem, que eu te mostro!" Era um homem
reforado, em cuja roupa havia manchas de sangue - barba longa,
olhar atrevido.
Iam se pegar, mas Aleixo no consentiu dizendo que a polcia vinha os
prender, que no valia a pena brigar por uma cousa  toa... Ento
Bom-Crioulo, como gostava do pequeno, fugiu, deixando o portugus
no meio de uma praa muito grande, cheia de arvoredos.
A realidade, porm, veio despert-lo. Eram onze horas. Tinha-se
aberto a porta da solitria e, mesmo em jejum, ele ia ser castigado.
Faltava o comandante para se dar princpio  solenidade. Uma onda de
luz banhou a priso iluminando o rosto do marinheiro.
- Levante-se! ordenou o sargento da guarda.
Bom-Crioulo no podia se mover: foi preciso que o segurassem.
Apertava-lhe a boca uma mordaa de ferro. Havia no seu olhar uma
indignao muda e triste.
Ergueu-se trpego, bambo, os olhos como duas tochas, uma equimose
roxa na face, porque adormecera com a cabea no joelho em posio
de mmia indgena. Fez-lhe bem o ar livre da manh; a luz que se
esperdiava no espao reanimou-o; todo ele sentiu-se vibrar; ofereciase
ao castigo, sem medo, impvido e sereno, odiando intimamente, l
no fundo de sua natureza humana, aquela gente que o cercava
exultando, talvez, com a sua desgraa. No tinha ningum por ele -
era um abandonado, um infeliz... O prprio Aleixo onde estaria?
Essa lembrana o comoveu. Sim, o Aleixo era a causa de tudo...
Enquanto vivera na companhia do grumete, nunca se embriagara
positivamente: bebia, de longe em longe, um golezinho de cachaa
para aquecer, e ficava satisfeito. Agora no, s se contentava com
uma tera e gostava de repetir. - Ah! seu Aleixo, seu Aleixo!...
Como da outra vez, na corveta, houve "mostra geral", a guarnio
inteira formou  r, na tolda.
O castigo foi tremendo.
- No se iluda a guarnio deste navio! perorou o comandante.
Desobedincia, embriaguez e pederastia so crimes de primeira
ordem. No se iludam!...
E, como da outra vez, Bom-Crioulo emudeceu profundamente sob os
golpes da chibata. Apanhou calado, retorcendo-se a cada golpe na dor
imensa que o cortava d'alto a baixo, como se todo ele fosse uma
grande chaga aberta, viva e cruenta... Morria-lhe na garganta um
grunhido estertoroso e imperceptvel, cheio de angstia, comprimido e
seco; dilatavam-se-lhe os msculos da face em contraes galvnicas;
o sangue convulsionado, rugia dentro, nas artrias, no corao, no
ntimo de sua natureza fsica, palpitante, caudaloso, numa pletora
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descomunal!
Ele sofria tudo com aquele orgulho selvagem de animal ferido, que se
no pode vingar porque est preso, e que morre sem um gemido, com
um olhar aceso de clera impotente!
Errava na luz intensa do meio dia uma tristeza vaga e universal. L de
fora, da barra, vinha, encrespando a agia, um arzinho fresco
impregnado de maresia. A cidade, em anfiteatro, cintilava entre
montanhas na lnguida apatia daquela hora calmosa. O vulto do
couraado, largo e imvel no meio da baa, com seu enorme arete,
com sua cobertura de lona, resplandecia destacado, longe dos outros
navios, longe de terra, fantstico, arquitetural!
 ltima chibatada, Bom-Crioulo rodou e caiu em cheio sobre o
convs, porejando sangue. Ah! mas no havia no seu dorso uma
nesga de pele que no fosse atingida pelo vime. Caiu fatalmente,
quando j no lhe restava a menor energia no organismo, quando se
tornara desumano o castigo e a dor sobrepujara a vontade.
S ento apareceu o mdico, trmulo e nervoso, dizendo que "no era
nada, que no era nada; que trouxessem o vidrinho de ter e gua,
um pouco d'gua..."
O comandante aproximou-se tambm, mas retirou-se logo com o seu
desdenhoso aspecto de fofa nobreza: - "No se iludam, no se
iludam!"
E da a pouco largava um escaler sem flmula, conduzindo o
marinheiro para o hospital.
Fica-te malvado, fica-te! exclamou Bom-Crioulo, voltando-se para o
couraado, em caminho: - Fica-te!
Aleixo nesse dia estava de folga, e muito cedo, cousa de um hora, veio
 terra impelido por uma grande saudade que o fazia agora escravo da
portuguesa. Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com
seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus mpetos de
touro, e esta lembrana entristecia-o como um arrependimento. Ficara
abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnncia, cheio de
nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo
unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque,
afinal, devia-lhe favores, mas no o estimava: nunca o estimara!
Subiu devagar, p ante p, a escada do sobradinho, meticulosos,
agarrando-se  parede, ouvido alerta, comprimindo a respirao. -
Felizmente a porta de cima estava aberta...
De vez em quando pisava em falso e os coturnos de bezerro gemiam
surdamente. - Era o diabo se o Bom-Crioulo estivesse...
Foi andando sempre cauteloso, t  sala de jantar. Ningum! Enfiou
pela cozinha; e, da janela que abria para o quintal, viu l baixo,
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vergada sobre um monto de roupa mida, a portuguesa em
tamancos, arregaada e sem casaco, s voltas, cantarolando. O
instinto f-la voltar-se e olhar para cima; seu primeiro movimento foi
um grito de surpresa e alegria: - Oh! o pequenino, o meu pequenino!
j l vou. Espera, sim?
Aleixo pediu silncio, com o dedo na boca, e, indicando o sto,
perguntou, debruando-se  janela, sem Bom-Crioulo estava...
- Qual Bom-Crioulo! rompeu D. Carolina alto e sem mistrio,
estabanadamente. Qual Bom-Crioulo! Tua negra est s, meu
pequenino! J l vou.
Mas o grumete no se conteve: desceu ao quintal para examinar
aquela fartura de mulher em trajos de lavadeira, que seus olhos viam
extasiados.
Com efeito, a portuguesa estava irresistvel para um adolescente nas
condies de Aleixo, bisonho em aventuras dessa ordem, e cuja
virilidade apenas comeava a destoucar-se.
D. Carolina vestia camisa e saia curta que lhe dava pelo joelho; a
cabea estava coberta com um grande leno de chita amarrado por
baixo do pescoo.
- No venhas, meu pequeno, disse ela, percebendo as intenes de
Aleixo. Olha, deixa-me acabar isto, sim?
O grumete formalizou-se: - "Oh! podia acabar podia acabar..."
E logo, aproximando-se:
- Vim apenas v-la de perto...
- Ests caoando, hein! ests caoando com a tua velha...
- Caoando, no. Estou falando srio.
A portuguesa desatou numa risada lmpida e gostosa, de uma
sonoridade vibrante, sacudindo os quadris, cabeceando
histericamente:
- Ora o meu pimpolho! Ora o rico pimpolhozinho!
E ria, ria num desespero.
Aleixo encavacou:
- Est bom, vou-me embora.
- Oh! no, no... Brincadeira! Se vais, fico zangada. V l, hein! v
l...
E com fingida ternura, ameigando a voz:
- Fica, meu bonitinho, fica, junto  tua negra...
Ele sorriu vagamente e entraram a conversar como bons amigos.
Estiveram ali, debaixo do telheiro de zinco, um ror de tempo - o
grumete sentado  beira do tanque, perna tranada, a portuguesa
muito aodada na faina de concluir a lavagem.
Fora daquele pequeno espao refrescado pela gua, brilhava o sol com
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uma intensidade rtila e abrasadora. O capim seco do coradouro ardia,
muito raso, muito desolado e outonio. Na vizinhana, um papagaio de
estima berrava estridentemente. Havia grande calma. A gua da bica
no cessava de cantar no tanque, escorrendo, escorrendo...
Aleixo dependurou a jaqueta de flanela azul e deixou-se ficar em
camisa de meia, ouvindo cantar a gua, enquanto D. Carolina ia
enxaguando a roupa.
Falaram em Bom-Crioulo e riram  custa do negro, baixinho,  socapa.
- Boa criatura! sentenciou a portuguesa com um qu de ironia.
- Para o fogo! acrescentou Aleixo.
No sabiam do "rolo". A portuguesa disse apenas que o outro sara na
vspera, depois do meio dia, e no regressara. - Naturalmente fora
preso...
Um relgio deu horas.
- Quantas? perguntou a mulher.
- Quatro, disse o grumete.
- Jesus! Vou acabar, vou acabar! Fica pr'amanh o resto.
- ! Basta de trabalho, isso no vai a matar, disse Aleixo erguendo-se.
E seus olhos pousavam traioeiramente sobre o colo nu, sobre a
espdua nua de D. Carolina, cheios de desejo, vidos de gozo.
Ela, como se sentisse no prprio corpo as ferroadas daquele olhar,
como se lhe experimentas e o calor vivo, a fora magntica, o poder
fsico, material e irresistvel, chegou-se ao grumete e disse-lhe ao
ouvido estas palavras, que produzira, nele o efeito indizvel e vago de
um estremecimento nervoso: - Vamos tomar banho?...
- Aqui?
- Por que no?
- Podem ver...
- Fecha-se a porta da rua. No tenho inquilinos agora...
Aleixo no disse que sim nem que no. Espreguiou-se todo,
contorcendo-se num espasmo incompleto, sentindo um friozinho bem,
extraordinariamente bom, uma comoozinha maravilhosa percorrerlhe
as fibras, descendo pelo espinhao e espalhando-se por todo o
organismo.
A portuguesa foi depressa l cima, ao sobrado, e voltou, sem demora,
com a face radiante.
Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as
calas, p-lo nu a seus olhos. Bom-Crioulo j lhe havia dito que Aleixo
"tinha formas de mulher".
Depois comeou a se despir tambm...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro atravs
da gua lmpida e fresca.
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Ningum os via naquela nudez primitiva, frente a frente - o corpo
largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas
do efebo -, escandalosamente nus, pecadoramente bblicos no silncio
do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno
alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ningum saber nunca.
Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo
consumada ali por trs da Rua da Misericrdia num belssimo dia de
novembro.
D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambio de mulher
gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de
ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse
para ela o que um animal de estima  para o seu dono - leal, sincero,
dedicado at ao sacrifcio.
Aleixo remoava-a como um elixir estranho, milagrosamente
afrodisaco. Sentia-se outra depois que se metera com o pequerrucho:
retesavam-se-lhe os nervos, abria-se-lhe o apetite, entrava-lhe n'alma
uma extraordinria alegria de noiva em plena lua-de-mel, toda ela
vibrava numa festiva exuberncia de vida, numa ecloso torrencial de
felicidade - o corpo leve, o esprito calmo... Aleixo pertencia-lhe,
enfim; era seu, completamente seu; ela o tinha agora preso como um
belo pssaro que se deixasse engaiolar; tinha-lhe ensinado segredinho
de amor, e ele gostara imenso, e jurara nunca mais abandon-la,
nunca mais!
O grumete, por sua vez, experimentava o que experimentaria
qualquer adolescente - uma tendncia fatal para a portuguesa, um
forte desejo de possu-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade
irresistvel de morde-la, de cheira-la, de palpa-la num frenesi de gozo,
num grande mpeto selvagem de novilho insacivel.
A tarde passou rapidamente. Depois do jantar (sopa, cozido e bananas
de S. Tom, fora o vinho fornecido pelo aougueiro) dirigiram-se  sala
da frente. Aleixo quis ver o lbum de retratos; a portuguesa trouxelho.
E sentado no velho sof, num quase abrao - ele muito curioso,
desejando saber de quem eram as fotografias, ela meio derreada, o
cabelo mido e solto, explicando minuciosamente cada figura,
paisagens da Europa, trechos de Portugal e das ilhas -, esperaram a
noite.
Escureceu. D. Carolina foi acender o bico de gs, queixando-se do
calor, "que a sua vontade era no sair d'gua, viver dentro d'gua,
morrer n'gua, flutuando..."
Aleixo riu, achou graa, lembrando-se, talvez, da semelhana que
havia entre a portuguesa e uma grande corveta bojuda...
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- Ora, dize uma cousa,  pequerrucho, tu me queres bem mesmo ou
isso  uma esquisitice, uma pndega?
E risonha, sentando-se:
- Mas olha, dize a verdade! V l me vens com histria...
Ele ento disse que estimava-a do fundo do corao e tornou a jurar
que havia de morrer junto dela, na mesma cama - juntinho, lado a
lado...
- E se morreres a bordo, no mar?
- Pacincia, murmurou o grumete num tom de tristeza.
Mas, arrependida, ela o cobriu de beijos:
- No, ele no morreria no mar. Brincadeira, brincadeira...
Havia no rosto imberbe e liso do grumete uns tons fugitivos de ternura
virginal, o quer que era breve e delicado, a branca melancolia de
certas flores, o recolhimento ingnuo e discreto de uma educanda; e
era isso justamente, esse qu indefinvel, essa poesia inocente
derramada no semblante de Aleixo, que provocava a portuguesa,
ferindo a corda sensvel do seu corao abandonado e gasto. Era uma
pena, decerto, ver aquele rosto de mulher, aquelas formas de mulher,
aquela estatuazinha de mrmore, entregue s mos grosseiras de um
marinheiro, de um negro... Muita vez o pequeno fora seduzido,
arrastado. Ela at fazia um benefcio, uma obra de caridade... Aquilo
com o outro, afinal, era uma grossa patifaria, uma bandalheira, um
pecado, um crime! Se Aleixo havia de se desgraar nas unhas do
negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse. Lucravam ambos,
ele e ela...
Mas Aleixo no podia esquecer Bom-Crioulo. A figura do negro
acompanhava-o a toda parte, a bordo e em terra, quer ele quisesse
quer no, com uma insistncia de remorso. Desejava odi-lo
sinceramente, positivamente, esquec-lo para sempre, varr-lo da
imaginao como a um pensamento mau, como a uma obsesso
inslita e enervante; mas, debalde! O aspecto repreensivo do
marinheiro estava gravado em seu esprito indelevelmente; a cada
instante lembrava-se da musculatura rija de Bom-Crioulo, de seu
gnio rancoroso e vingativo, de sua natureza extraordinria - hbrido
conjunto de malvadez e tolerncia -, de seus arrebatamentos, de sua
tendncia para o crime, e tudo isso, todas essas recordaes o
acovardavam, punham-lhe no sangue um calafrio de terror, um vago
estremecimento de medo, qualquer cousa latente e aflitiva... Suas
expanses com a portuguesa eram incompletas, vibravam-lhe os
lbios em sorrisos de falsrio, cada vez que ela o exaltava para
deprimir o outro...
Todavia a noite foi como um delrio de gozo e sensualidade. D.
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Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraos e
suces violentas...
9
Vida triste era a de Bom-Crioulo, agora, no hospital, longe da Rua da
Misericrdia e do seu nico afeto, obrigado a um regimen conventual,
alimentando-se parcamente, ouvindo a toda hora gemidos que lhe
entravam na alma como uma salmodia agourenta, como a dorida
expresso de seu prprio abandono, metido entre as paredes de uma
lgubre enfermaria - ele que amava a liberdade com um entusiasmo
selvagem, e cujo ideal era viver sempre na companhia de Aleixo, do
ingrato Aleixo...
A figura do rapazinho, rechonchuda e ndia, esvoaava-lhe na
imaginao provocadoramente, seduzindo-o, arrastando-o para um
mundo de gozos, para uma atmosfera de lubricidade, para o silncio
misterioso de uma existncia devotada ao amor clandestino, ao regalo
soberano da carne , a todos os delrios de uma paixo que chegava 
loucura.
A ausncia aumentava-lhe o desespero, aquela vida triste de hospital
enchia-o de aborrecimentos, era um castigo sem nome para quem,
como ele, reclamava liberdade e amor - liberdade absoluta de
proceder conforme o seu temperamento, amor fsico por uma criatura
do mesmo sexo que o seu, extraordinariamente querida como Aleixo...
Nunca mais tivera notcias dele, nunca mais o vira, nunca mais haviam
trocado um simples olhar...
Entretanto, qu de recordaes povoavam-lhe o crebro,  noite,
quando, s ele Bom-Crioulo, d'olhos abertos no escuro, fitando o teto
da enfermaria, velava, ele s, ali dentro! Qu de recordaes, meu
Deus! Via, como se estivesse vendo na realidade, as formas do
grumete, o seu olhar azul e a face branca, o quartinho morno da Rua
da Misericrdia, trepado, l cima, no sto,  beira do telhado, a cama
de lona, o retrato do imperador, pregado  parede, muito srio, com
um ar de suprema bonomia, e tudo que o cercava no voluptuoso
ambiente, onde vivera tantos dias de felicidade... Ficava horas e horas
pensando, horas e horas mergulhado numa abstrao vagarosa, num
xtase calmo, recordando, captulo por captulo, a histria de seu
amor. Da um profundo e inexplicvel desgosto, uma idiossincrasia
especial feita de cime e de ternura dolente. Imaginava cousas de
homem que perdeu o juzo: - Aleixo ainda o estimaria? No, com
certeza. Se ainda o estimasse, t-lo-ia procurado, onde quer que ele,
Bom-Crioulo, estivesse; mas Aleixo nunca mais se importara, desde o
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dia da separao. Quem sabe? novos amores...
O negro enchia-se de dio ao mesmo tempo que sentia aumentar
dentro do corao o desejo de possuir eternamente o rapazinho.
Desejava-o, sim, mas virgem de qualquer outro contato que no fosse
o dele, queria-o como dantes, para si unicamente, para viver a seu
lado, obediente a seus caprichos, fiel a um regimen de existncia
comum, serena e cheia de dedicaes mtuas.
Era-lhe impossvel abandonar o grumete; e agora principalmente,
agora  que esse amor, essa obsesso doentia redobrava com uma
fora prodigiosa impelindo-o para o outro, acordando zelos que
pareciam estagnados, comovendo fibras que j tinham perdido antigas
energias. o Bom-Crioulo da corveta, sensual e uranista, cheio de
desejos inconfessveis, perseguindo o aprendiz de marinheiro com
quem fareja uma rapariga que estria na libertinagem, o Bom-Crioulo
erotmano da Rua da Misericrdia, caindo em xtase perante um
efebo nu, como um selvagem de Zanzibar diante de um dolo sagrado
pelo fetichismo africano - ressurgia milagrosamente.
Ele ali se achava no hospital, abandonado e s, gemendo tristezas
inconsolveis, arrastando os farrapos de sua alma, ganindo - pobre
co sem dono - blasfmias contra a sorte que o desligara de Aleixo,
contra Deus, contra tudo!
As janelas da enfermaria davam para o mar, ficavam defronte dos
rgos, abriam para o fundo melanclico da baa. Na sala umas dez
camas de ferro, colocadas em ordem, simetricamente imobilizavam-se
com os seus cobertores de l vermelha dobrados a meio e pondo uma
nota viva de sangue na brancura dos lenis. A, como em todos os
alojamentos do hospital, predominava um cheiro erradio de
desinfetantes, o vago odor caracterstico das casas de sade e dos
necrotrios, insuportvel, s vezes, como uma exalao de sepultura
aberta. Os doentes, em seu uniforme branco de algodo, erguiam-se e
tinham licena para recrear fora, nas dependncias do
estabelecimento, licena especial do mdico a quem estavam
entregues. Cada enfermaria tinha o seu especialista. Bom-Crioulo fora
recolhido  seo dos escrofulosos,  grande sala que dizia para o mar
e donde se gozava um belssimo aspecto de natureza americana.
Indiferente a tudo que no fosse o grumete, cuja lembrana infligialhe
as maiores torturas, ningum o vira sorrir depois que baixara ao
hospital.
Carrancudo, o olhar atrevido e ameaador - fugindo  companhia dos
outros, no podia esquecer, no podia apagar do esprito aquela idiapesadelo:
o grumete nos braos doutro homem... Ah! bastava isso
para tirar-lhe o sossego, para fazer dele um ente miservel,
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contorcendo-se nas angstias de um cime brbaro. Aleixo fazia-o
padecer noites inteiras, dias sucessivos, como ave que se debate em
estreita gaiola de ferro. - Amava muito decerto, queria um bem louco
ao pequeno, preferia-o a todas as mulheres bonitas do mundo!
Enquanto iam-lhe cicatrizando as feridas roxas do corpo tatuado pela
chibata, abria-se-lhe na alma rude de marinheiro uma grande vcuo;
terrvel sensao de desespero acometia-o cada vez que pensava no
outro, nesse grumete sem alma que o iniciara no amor e que o fazia
sofrer as amarguras de uma vida de condenada... Bom-Crioulo sentiase
transformar inteiramente; alguma cousa profunda e grave, que ele
prprio no sabia explicar, assim como um prenncio fatal de
desgraa, punha-o triste, arrebatava-o s alegrias da camaradagem,
dando-lhe um aspecto estranho de malvadez rebuada.
- Aquilo no era hospital, aquilo era um inferno! monologava crispando
o beio em assomos de raiva feroz. Estava-se-lhe esgotando a
pacincia.
J uma vez pedira alta; se o queriam levar a capricho, ento adeus!...
Morria, mas no dava parte de fraco... Era homem, que diabo! e um
homem deve mostrar para que veio ao mundo...
Embirrava com toda gente, afinal: - Enfermeiros brutos! Cozinheiros
de frege! O prprio mdico, assim que lhe dava as costas, era logo
insultado.
Seu consolo nesse abandono de gal, nessa espcie de viuvez d'alma,
era o retrato de Aleixo, uma fotografia de baixo preo tirada na rua do
Hospcio, quando ele e o pequeno moravam juntos na corveta.
Representava o grumete em uniforme azul, perfilado, teso, com um
sorriso pulha descerrando-lhe os lbios, a mo direita pousada
frouxamente nos espaldar de uma larga cadeira de braos, todo
meigo, todo petit-jesus... Bom-Crioulo guardava essa miniatura
religiosamente, com cautelas de namorado, e  noite, quando se ia
deitar, despedia-se dela com um beijo mido e voluptuoso. Habituarase
quilo do mesmo modo que se habituara a fazer o sinal-da-cruz
antes de fechar os olhos. Uma superstio pueril de amante cheio de
ternuras... Agora, porm, esse amuleto inestimvel acompanhava-o a
toda a parte. Durante o dia mesmo, ele sacava-o fora do bolso e
punha-se numa contemplao mstica, num vago enleio ideal, a olhar
o retrato de Aleixo, como se daquele carto inanimado e frio lhe
pudesse vir um raio de amor, um luar de esperana...
Achava-o muito parecido com o original, oh! mesmo muito... Os olhos,
a boca, o sorriso, o nariz... tudo! Como  que se podia, num momento,
copiar assim as feies de uma criatura! Era ele, exatamente o Aleixo!
E ficava admirado, ficava idiota, perdia a cabea, quando seus olhos
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caam sobre o pequeno "registro"... Ria-se, s vezes, para ele, sem
que ningum visse, retirado para um cano obscuro, longe dos outros.
E cada dia que passava era como se fosse um ano, um sculo, uma
eternidade!
Lembrou-se de pedir a algum que lhe escrevesse um recado ao
grumete, duas palavras, uma linha...
Talvez ele nem soubesse onde estava o Bom-Crioulo... Falou a um
rapazinho empregado no hospital: era favor, sim? um favorzinho... E
ali mesmo, na enfermaria, perto da janela que olhava para os rgos,
quase ao escurecer, traaram estas palavras:
"Meu querido Aleixo
No sei o que  feito de ti, no sei o que  feito do meu bom e
carinhoso amigo da Rua da Misericrdia; Parece que tudo acabou entre
ns. Eu aqui estou no hospital, j vai quase um ms, e espero que me
venhas consolar algumas horas com a tua presena. Estou sempre a
me lembrar do nosso quartinho... No faltes. Vem amanh, que 
domingo.
Teu
Bom-Crioulo"
Somente isto. - Queria ver agora como se portava o "senhor Aleixo",
se ainda o estimava, se era o mesmo da corveta, o mesmo da Rua da
Misericrdia, meigo e dcil, carinhosos e reconhecido.
No dia seguinte, pela manh cedo, o primeiro escaler que largou da
ilha para a terra conduzia o bilhetinho cautelosamente fechado, escrito
numa garatuja desigual, tortuosa, indecifrvel, que o empregado
traara ao crepsculo, defronte do mar e  pressa.
O negro ficou ansioso pela resposta, numa inquietao de namorado
que espera o desejado momento de abraar a sua ela, contando as
horas minuto por minuto, frentico s vezes; quando, por uma iluso
do ouvido, julgava perceber a voz do outro, animado agora e depois
completamente desanimado,  proporo que as horas iam passando,
fazendo clculos ideais, balbuciando monlogos imperceptveis, indo e
vindo pelos corredores, pelas dependncias do hospital como um
idiota, como uma pessoa inconsciente. - E se ele no viesse? Ah!
decididamente  porque j no o estimava:  porque o desprezava.
Mas, ao menos, havia de responder fosse o que fosse.
No podia acreditar que ele, sempre to amvel, to bom e solcito,
rasgasse o bilhete sem dar uma respostazinha, um sim ou um no.
Qual...
Tinha penteado o cabelo, mudado de roupa, e de instante a instante
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fazia uma chegada ao espelhinho, ao seu miservel caco de espelho,
um traste que possua no fundo da maca.
Passou a hora do almoo, chegou a hora do jantar, entraram e saram
marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada!
nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! - Era mesmo para uma pessoa
danar! Se no quisesse ir, dissesse!
Comeava a perder a esperana. - Amigos! fie-se a gente em
amigos!...
Crescia-lhe a inquietao moral, crescia-lhe o desespero como uma
onda que vai pouco a pouco intumescendo, empolando-se, at se
desfazer em espuma, quebrar-se de encontro  rocha... - No
almoara, no jantara, e o resultado era aquele: o senhor Aleixo
divertia-se!
E quando as corvetas da esquadra fizeram sinal de "arriar a bandeira",
quando o porto do hospital fechou-se s visitas, uma tempestade de
dio levantou-se no interior daquele homem capaz de todas as
dedicaes e de todos os horrores.
Bom-Crioulo rugiu interiormente; alguma cousa despedaou-se dentro
dele, tamanho foi o abalo do seu corpo. Entrara-lhe no esprito a
convico, a certeza absoluta de que o pequeno estava com "outro",
abandonara-o. Recolheu-se  enfermaria taciturno, cheio de clera,
num delrio de raiva surda, numa febre de vingana que at lhe
incendiava o rosto por fora, queimando a pele...
Veio a noite e ele no pode dormir, nem fechar os olhos.
Espojava-se na cama, de um lado para o outro, abafado, sem ar que
lhe enchesse os pulmes, numa terrvel crise de nervos, como se
estivesse a lutar com fantasmas, ora repuxando os lenis, ora
descobrindo-se todo na agonia de uma formidvel dispnia. -
Abandonado, ele! abandonado por aquele que o devia estimar como a
um pai! Abandonado por Aleixo, por seu querido Aleixo!...
Parecia-lhe incrvel! desespero igual nunca ele experimentara. S lhe
vinham  imaginao cousas tristes, idias lgubres. E, para maior
infelicidade, para maior desgraa, ouviu toda a noite algum gemer na
enfermaria vizinha - uma voz de homem, grossa, abafada, inimitvel,
chamando pelo nome de Jesus e que a ele, Bom-Crioulo, parecia a sua
prpria voz de amante infeliz apelando para a suprema bondade de
Deus... O desgraado, quem quer que fosse, gemia, gemia sem
trgua, cortado de dores horrveis.
Pairava na atmosfera calma do hospital um cheiro muito vivo de
alfazema queimada, assim como um vago odor de cmara morturia.
Bom-Crioulo que nunca em sua vida, tivera medo, e que sempre
desafiara a morte corajosamente, no pode evitar, essa noite, um
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calefriozinho de pavor. Houve um momento em que se revoltou contra
o pobre doente que gemia. - Diabo! No se podia dormir com aquele
agouro!... Se tinha de morrer, morresse logo...
Mas, arrependeu-se: - Coitado! era algum desgraado como ele,
algum pobre marinheiro sem amigo na terra...
Os gemidos foram pouco a pouco cessando, pouco a pouco diminuindo
- triste monodia que se cala no silncio da noite. Pela madrugada
sentia-se ainda o cheiro de alfazema, enjoativo e penetrante, mas o
doente cessara de gemer. Quem sabe se teria morrido? Foi embalado
por essa idia desoladora que o Bom-Crioulo caiu no sono...
Davam trs horas.
Nesse dia, como nos outros, a mesma preocupao, a mesma idia
fixa, obstinada e mortificante, encheu a alma do pederasta. Ele prprio
se admirava de como  que "aquilo" renascera - ele que se julgava
forte para no se impressionar com tolices, ele que supunha tudo fcil,
tudo passageiro na vida! - Porque afinal (refletia) quando se ama uma
rapariga bonita, uma mulher nova, branca ou mesmo de cor - v! Um
homem perde a cabea, e com razo; mas, andar uma pessoa triste,
sem comer, sem dormir, sem fazer pela vida, por causa de outro
homem, por causa de um "individuozinho" que se abre para todo
mundo -  uma grande loucura...
Mas embalde procurava iludir-se: a imagem de Aleixo agarrara-se-lhe
ao esprito e cada vez o torturava mais; borboleta importuna,
esvoaava em torno dele, provocando-lhe o apetite sensual,
estimulando-o como um afrodisaco milagroso, fazendo-lhe
renascerem todas as foras vivas do organismo genital, que ele julgara
enfraquecidas pelo excesso, pela intemperana.
Sentia-se forte ainda para grandes cometimentos, para maiores
provas de virilidade, e nenhuma criatura humana, fosse a mais bela de
todas as mulheres, alcanaria proporcionar-lhe tanto gozo, tanta
felicidade, num s momento, como Aleixo, o delicioso e incomparvel
grumete, que era, agora, o seu nico desejo, a sua nica ambio no
mundo. Havia de o possuir, havia de o gozar, como dantes, por que
no?: Morto ou vivo, deste ou daquele modo, Aleixo havia de lhe
pertencer!
Comeou a imaginar um meio de fugir, de abandonar o hospital em
procura do grumete. - Ora, adeus! o que tem de ser sempre ! J no
podia suportar cheiro de hospital. Para castigo bastava...
Mas, como fugir? como iludir a vigilncia das sentinelas? Uma vez
embaixo, no cais, era fcil tomar um bote de ganho, ou mesmo ir 
nado...
E os dias passavam, uns aps outros, com a mesma uniformidade,
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cheios de monotonia, cheios do sol quente de estio, e Bom-Crioulo no
achava ocasio oportuna de realizar seu plano de fuga.
Ia-se-lhe tornando cada vez mais insuportvel a existncia naquela
espcie de convento de invlidos. Estava magro, visivelmente magro:
- "estava acabado!" E que sonhos terrveis, que pesadelos! Uma noite
sonhou que Aleixo tinha morrido com uma facada no corao; que ele,
Bom-Crioulo, via o pequeno ensangentado numa cama de vento,
nuzinho, os beios muito roxos... e que a portuguesa, D. Carolina,
chorava perdidamente, enxugando os olhos com um grande leno de
tabaco... - J viram que extravagncia?...
E outros e outros sonhos... Se continuasse ali, naquele presdio,
acabava maluco, era capaz de morrer doido. - Oh! sim, queria fugir,
no tolerava mais aquilo. "-... que os pariu"..."
E todos os dias a mesma cousa, o mesmo penar, a mesma srie de
idias vagas, incompletas, as mesmas oscilaes, as mesmas dvidas.
Uma noite ia sendo preso, quando tentava escalar o muro do
hospital...
10
Mais tranqilo agora, sem receio de que Bom-Crioulo o procurasse
para uma vingana, identificado com a portuguesa, esquecido mesmo
de certas cousas que o faziam tmido e medroso, Aleixo ia passando
uma vida regalada, ora em terra, ora a bordo da corveta, sem outros
cuidados que no os da sua rude profisso. Estava gordo, forte, sadio,
muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os msculos
desenvolvidos como os de uma acrobata, o olhar azul penetrante, o
rosto largo e queimado. Em pouco tempo adquirira uma expresso
admirvel de robustez fsica, tornando-se ainda mais belo e querido. A
portuguesa, essa vivia dele; amava-o, adorava-o!
Ah! era muito capaz, ela, de fazer uma loucura por causa do seu
bonitinho! - Quando Aleixo vinha de bordo, nada lhe faltava naquele
pobre sobradinho da Rua da Misericrdia. Tudo ela guardava para o
seu formoso marinheirito: eram frutas, doces, comidas especiais,
quitutes  portuguesa, isso, aquilo, aquilo outro... Ela mesma batia,
engomava a roupa dele com um melindroso carinho de me amorosa,
dobrando as camisas, perfumando-as de alecrim para ele mudar
quando viesse do trabalho. Como tudo mudara naquela casa depois
que o negro sara! O sto, o misterioso sotozinho estava
abandonado, Aleixo no queria saber dele, odiava-o, porque ali  que
se tinha feito escravo de Bom-Crioulo, ali  que "tinha perdido a
vergonha". O pobre quarto era como um lugar de maldies: vivia
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trancado  chave, lgubre e poeirento. D. Carolina rarssimas vezes
abria-o, isso mesmo quando tinha de recolher algum traste velho,
algum mvel sem prstimo. O retrato do imperador, a cama de lona,
os cacarus de Bom-Crioulo e do grumete, aquilo tudo que dantes
fazia o encanto do dois amigos tinha desaparecido. Nada restava agora
daquele viver comum.
- E se o negro vem por a um belo dia? imaginou Aleixo, receoso.
- Qual vem, qual nada! fez a portuguesa com um gesto de profunda
convico. Bom-Crioulo j nem se lembra de ti; anda na bilontragem;
o que ele queria era te desfrutar.
E logo:
- Se vier,  a mesma cousa. Ningum morre de careta. Diz-se-lhe que
os engenheiros proibiram morar no sto; que o teto ameaa
desabar.... Inventa-se...
E os objetos de Aleixo, somente os dele, foram colocados na alcova da
portuguesa, embaixo, no primeiro andar. De ento em diante
passaram a dormir juntos, como um casal, na mesma cama larga. E
ningum pisou mais no sotozinho, agora transformado em depsito
de mveis inteis, coberto de p, abrigo de insetos, ninho de ratos.
H quase um ms que isso durava, e, longe de se aborrecer, Aleixo
sentia, pelo contrrio, uma inabalvel e profunda afeio por D.
Carolina, exigindo at que ela no recebesse mais o barbaas do
aougue. Queria-a para si, unicamente para si, ou estava tudo
acabado!
Ela procurou convenc-lo que o sujeito, o Man'el, era um tipo
"necessrio", porque lhe dava mesada, pagava o aluguel do sobrado:
uma pechincha! Quanto a ser homem, ora! o "bonitinho" ficasse
descansado: no havia perigo.... Man'el era um pobre coitado, uma
criatura sem foras, um porcalho...
Mas Aleixo indignou-se: - No senhora, no admitia outro homem!...
Ela bem podia trabalhar honestamente e ganhar dinheiro para o
aluguel. No senhora, ou ele, Aleixo, ou o barbaas.
D. Carolina riu e protestou no receber mais o Man'el. Haviam de viver
"honradamente"!
Aleixo ficou muito satisfeito, muito orgulhoso, muito convencido.
Mas a verdade  que, se o aougueiro no continuasse a fornecer
carne e a pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele como a portuguesa
teriam renunciado quele amor.
- Nem o Man'el sabe do bonitinho, nem o bonitinho sabe do Man'el,
pensava D. Carolina.
E tudo ia marchando sem atropelos - dourada embarcao em mar de
rosas...
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... Vai seno quando chega o bilhete do negro: - Meu querido Aleixo...
D. Carolina passou os olhos com sofreguido, correndo logo 
assinatura, e, ao deparar com o nome do Bom-Crioulo meneou a
cabea desdenhosamente. Depois releu aquelas palavras tocadas de
amor e de saudade, e ficou um ror de tempo no meio da sala, em p,
como se houvesse enlouquecido.
Seriam onze horas; - uma manh quente de dezembro, cheia de luz e
de poeira.
Tinha acabado de almoar, como de costume, o seu bife e o seu caf
com leite, quando bateram:
Era o bilhete do negro, do "maldito"!
Aleixo tinha ido para bordo naquela manh e s devia regressar no
outro dia. - Felizmente, meu Deus, felizmente o "bonitinho" no estava
em casa, porque, ento, podia se impressionar...
Passou um ltimo olhar no papel, como se quisesse decorar o recado,
e f-lo em miualhas atirando os bocadinhos no caixo do cisco. - Ora,
adeus! aquilo no servia para nada!
Mas ficou pensativa, cheia de um vago e misterioso pressentimento
que lhe fazia bater o corao. Assaltaram-lhe idias horrorosas de
crimes, de homicdios de sangue; relembrava casos que tinham
alvoroado o Rio de Janeiro, casos de cimes, de traies... Na Rua do
Senhor dos Passos um sargento esfaqueara uma pobre "mulher da
vida"; encontrara-a com outro... A polcia correu ao lugar do sinistro,
mas o assassino. como era noite, evadira-se, deixando o cadver da
rapariga crivado de golpes, rubro de sangue. Lembrava-se tambm de
outro caso medonho; fora na Rua dos Arcos: o assassino cortara a
mulher em bocados como se esquarteja uma rs. O povo correra em
massa para ver o espetculo; dizia-se at que a vtima era uma
espanhola de alto bordo chamada Lola.
Tudo isso vinha-lhe  imaginao desordenadamente, esfriando o seu
amor, enchendo-a de receios, de um medo pueril, que era como um
aviso de desgraa prxima.
Passou o dia sem fazer nada, inquieta, ora na alcova, deitada, a
pensar, calculando o futuro, rememorando uma cousa ou outra,
suspirando pelos bons tempos da sua mocidade, ora nos fundos da
casa, indo e vindo como tonta: - "que no se podia com o calor de
dezembro, uf!..."
Ficou muito admirada quando ouviu bater duas horas: - Ainda! Jesus,
que dia longo! E nem roupa havia para lavar, nem um servicinho, nem
uma distrao... Era contra seus hbitos aquilo: no podia estar em p
sem fazer cousa alguma, Que ferro!
No lhe saa da cabea o bilhetinho do negro que ela espedaara. - E
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no  que o tal Bom-Crioulo ainda se lembrava do Aleixo!
Grandessssimo pederasta! Nunca supusera que uma paixo amorosa
de homem a homem, fosse to duradoura, to persistente! E logo um
negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante
daquele!
Entrou pela noite com a mesma inquietao, com o mesmo receio
vago e indefinido, quase arrependida de se ter metido com o Aleixo.
Bem que estava sossegada no seu cantinho da Rua da Misericrdia,
vivendo como Deus queria, sem se incomodar. Afinal de contas, o
grumete era uma criana e ela uma senhora de idade...
E logo, refletindo: - Ah! mas ningum est livre: homem e mulher so
como fogo e plvora ... Assim mesmo quarentona, ela era mulher,
tinha sangue nas veias e um corao para sentir...
Bateu as portas, mais cautelosa que nunca, revistou o quintal, e foi
deitar muito cedo, pensando em Bom-Crioulo, no Aleixo e nas loucuras
da humanidade. Quase toda a noite ouviu rodarem os bondes. Fazia
um grande calor abafado de estufa, e ela no podia conciliar o sono,
adormecer tranqilamente; fechava os olhos em vo, para tornar a
abrir, no mesmo instante, sufocada, agitada por um nervoso ridculo
de mulherzinha histrica, ela, um mulhero daquele, gorda, forte e
sadia!
Nenhuma posio lhe agradava na cama: um mal estar, uma asma,
que lhe tirava o flego e o sono. Era a primeira vez que tal cousa lhe
sucedia. Debalde escancarou as portas da alcova - a que dizia para a
sala de jantar e a do corredor. Qual! A mesma falta de ar, o mesmo
inferno. E sempre a lembrana do negro e do outro atormentado-a
como um pesadelo cruel. Via Bom-Crioulo entrar pela casa bbedo, os
olhos em chama, segurando uma navalha de marinheiro, brandindo a
arma, cheio de dio feroz, terrvel, hediondo, e, de repente, cair sobre
o grumete, espumando cime, cortando-lhe de navalhadas; e parecialhe
estar vendo o outro rolar no cho sem fala, num rio de sangue,
morto!... E depois a polcia, gritos de socorro, vergonhas, curiosos que
vinham ver...
Bateu duas horas da madrugada. J se no ouviam os bondes. Um
silncio absoluto na rua, e, dentro, no sobrado, a mesma quietao
dormente e abafada - uma calma infinita de subterrneo.
Mais um quarto de hora e portuguesa caiu no sono profundamente -
um sono de pedra, inabalvel como o sono eterno...
Como de costume, Aleixo "folgou" no dia seguinte, e, como de
costume, veio direto  casa, muito leve, muito desobrigado, no seu
uniforme azul, capa branca no bon, oloroso e risonho. D. Carolina
estava para dentro, s voltas com a cozinha. Eram trs horas da tarde.
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O grumete estranhou que a porta da rua estivesse fechada quela
hora, e bateu com fora. - Oh! isso era novidade!...
A mulher correu logo a ver da janela: - Seria o bonitinho?
Houve um pequeno rebulio na vizinhana. Embaixo, na loja, apareceu
uma cabea negra, toda curiosa, fingindo que chegava ao postigo
naturalmente, por acaso... O caixeiro da padaria estirou o pescoo, de
dentro do balco.
D. Carolina, mal reconheceu o marinheiro, veio abrir logo com uma
exclamao de surpresa: - Oh! no o esperava to cedo!
- To cedo? Pois ainda achava cedo?  boa: quase noite!
- Oh! filho so duas horas...
- Duas no senhora: j vai para as quatro.
E foram subindo a escada, ela com o brao no ombro do rapazinho, ele
muito srio, muito desconfiado, os olhos baixos, uma expresso
melanclica no rosto pbere. - Que lembrana fechar a porta da rua
quela hora!..
E a portuguesa beijando-o na face:
- No te zangues, meu jasmim, no te zangues. Porta fechada livra de
tentaes... Deu-me uma cousa, um medo...
- Qual tentaes, qual medo! Voc j no  criana para andar se
escondendo... Isso at faz a gente desconfiar.
Mas D. Carolina no queria dizer a verdade, os seus escrpulos com
relao  Bom-Crioulo, o caso do bilhete. Para que sobressaltar Aleixo?
Ele bem sabia que o outro no o abandonava facilmente: negro  raa
do diabo, raa maldita, que no sabe perdoar, que no sabe
esquecer... Aleixo bem conhecia o gnio de Bom-Crioulo. De resto, o
caso do bilhete era uma tolice em que ningum devia pensar: - Cousas
de negro...
- Olha,  pequenino, juro-te que no fecharei mais a porta da rua.
Sossega, ouviste? sossega...
Estavam na alcova. O grumete corria o olhar nos mveis, na cama,
pelo quarto e pela sala, como quem procurava descobrir vestgios de
infidelidade. A mulher ajudava-o a se despir, tomando-lhe a roupa
mida de suor, toda cheia de cautelas para que ele no se
constipasse. - Olha, muda a camisa; olha, toma um o pouquinho de
aguardente; olha, cuidado com o vento; olha os chinelos...
Nunca vira tanto carinho, zelo tanto. A portuguesa multiplicava-se em
dedicaes, em ternuras quase infantis, desejando at que ele a
maltratasse, que ele a espezinhasse. O olhar azul de Aleixo tinha sobre
ela um poder maravilhoso, uma fascinao irresistvel: penetrava o
fundo de sua alma, dominando-a, transformando-a num pobre animal
sem vontade, queimando-a como uma brasa ardente, impelindo-a
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para todos os sacrifcios... Perto dele, fugiam-lhe todos os receios,
todas as dvidas: era capaz de atirar-se a um homem, de morrer na
ponta de uma faca, de assassinar, de fazer loucuras!
Nesse dia principalmente, ao contrrio da vspera, em que ela, no
meio de seus temores, desejava ver-se longe do rapazinho, nesse dia
principalmente achava-se de uma bondade maternal: a amizade
convertera-se-lhe numa espcie de fanatismo, numa adorao
religiosa. Beijava-o a cada instante, meiga, cariciosa e feliz, como se
todas as virtudes estivessem reunidas ali, no olhar de Aleixo, nesse
olhar ideal, de uma doura infinita.
- Tu s o meu santo,  pequenino, dizia ela; tu s a minha nica
felicidade neste velho mundo to cheio de misrias...
E abraava-o, rilhando os dentes, nervosa, excitada, oferecendo-se ao
rapazinho numa fria sensual e mrbida.
- Mas, que diabo  isso, filha, ests louca? ralhava o grumete cuja
fisionomia, desde que chegara, no se abrira num sorriso amvel: -
que desespero  esse?
- Oh! mas eu te quero tanto bem, meu queridinho, eu te amo tanto!
Ele no disse palavra. O jantar correu frio. D. Carolina retraiu-se por
sua vez, humilhada com as maneiras de Aleixo, porque ele, seco e
indiferente, no lhe fazia o menor agrado. Ambos permaneceram
calados, como duas pessoas estranhas na mesa de um hotel. Mas,
para o fim, ela no pode suportar aquele silncio incmodo.
- Que te fiz eu,  filho, dize, que te fiz eu? No me encontraste s, em
casa, trabalhando, mourejando? Que te fiz eu?
Aleixo continuava mudo, os beios agitados por um tremor convulso, o
olhar na parede.
- Vamos, dize, que te fiz eu? insistiu a portuguesa tocando-lhe no
brao. Hs de ter alguma razo para te zangares...
Ele, porm, no se movia, no dava resposta, impenetrvel na sua
mudez obstinada e cruel, que estava quase arrancado lgrimas 
mulher. Ento D. Carolina sentiu um desespero n'alma, e, erguendo-se
triste, foi-se para a alcova, maldizendo-se, lamentando a "sua
desgraa": - Que era uma infeliz, que todos a desprezavam, que
estava cansada de sofrer, que a vida era um inferno, que preferia
morrer!
- Para que fechou, ento, a porta da rua? tornou ele. H algum
mistrio nesta casa? A senhora no me esperava hoje?
-  filho, pois eu j no te disse que fechei apor causa de um medo
que me assaltou de repente?...
- Que medo, senhora, que medo! Para tudo h desculpa. A senhora
no est procedendo bem...
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D. Carolina tinha se deitado na cama, fungava, limpando os olhos com
o avental, muito queixosa.
- Donde  que veio esse medo hoje? Todos os dias a senhora no abre
a porta, no a deixa escancarada?
- Est voc fazendo barulho  toa, por uma ninharia... Ou o homem
tem confiana na mulher ou no tem. Voc nunca me encontrou com
outro, para fazer mau juzo da gente...
- Bom, mas, ento, seja franca, explique-se. Por que  que fechou a
porta da rua?
Havia j um princpio de reconciliao. Aleixo aproximara-se da cama
sensibilizado pela voz magoada da portuguesa que lhe botava uns
olhos muito ternos, muito cheios de humildade e resignao.
- Queres que eu te diga porque  que fechei a porta da rua? Pois
senta-te pr'a que eu te vou dizer. Calei-me por tua causa mesmo,
para no te dar cuidado.
O grumete imaginou logo uma srie de cousas desagradveis:
tentativas de roubo, ameaas e priso, violncias, um horror! Estava
longe, porm, de pensar em Bom-Crioulo; a seus olhos o negro
morrera, desaparecera; ningum lhe dava notcias dele;
decididamente nunca mais voltaria; talvez andasse nalguma viagem,
mar afora, nalgum cruzeiro. ..
E a portuguesa narrou o caso do bilhete, que ela rasgara., "porque no
valia a pena a gente se amofinar..."
Aleixo ouviu tudo curioso, a face na mo, derreado na cama larga.
- E onde est ele? perguntou vivamente.
- No hospital de marinha, na ilha, com alguma doena... Quem o no
conhecer que o compre.
Aleixo no quis dizer nada; mas a histria do bilhete comovera-o,
enchera-o de uma vaga melancolia: - Bom-Crioulo ainda se
lembrava!...
Pensou em visitar o negro, talvez fosse mais prudente...
- Que acha?
D. Carolina reprovou: - Jesus, que asneira! Isso era o mesmo que uma
pessoa se atirar do Corcovado. No, nunca!
- Deixa-o l, filho: pouco a pouco ele ir se esquecendo; faze pela vida
e deixa-o l. Vamos indo muito bem sem ele. Nada!
- E se ele entrar por aqui adentro um belo dia?
- Qual!... Por isso  que eu trago a porta da rua fechada...
- Bom, murmurou o grumete, erguendo-se. A vida  esta!...
- E ningum deve ir contra as leis da Providncia, resumiu D. Carolina
dogmaticamente.
Serenara a pequena discrdia. Estava tudo explicado. Aleixo
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reconhecera sua injustia para com a portuguesa, e ela o perdoara,
sempre boa, sempre generosa. Do alto do sobradinho viam ambos,
agora, aconchegados, felizes, rindo, os que passavam embaixo, na
rua. Que importava Bom-Crioulo? Que importava a febre amarela? Em
todo o Rio de Janeiro, em todo o mundo s havia duas criaturas
felizes: ele, o grumete, e ela, a portuguesa - felizes como Ado e Eva
antes do pecado, felizes como todos os casais que se amam...
Saram juntos, a dar uma volta, nessa noite. Aleixo props irem ao
Passeio Pblico tomar um sorvete, um refresco, uma bebida qualquer.
No se podia estar em casa com o calor! D. Carolina lembrou a
Guarda-Velha: - No seria melhor irem  Guarda-Velha,  fbrica de
cerveja? Havia msica tambm...
Mas o grumete ponderou que na Guarda-Velha estava-se muito 
vista, iam marinheiros de bordo, havia muita gente. O Passeio Pblico
era maior e menos freqentado: tinha-se mais liberdade. E depois era
s tomar o bondinho da Lapa.
- Oh! vai com a roupa de marinheiro! suplicou D. Carolina, vendo-o
enfiar um jaqueto  paisana.  mais fresca e d respeito...
- O respeito no est na roupa, doutrinou Aleixo, abotoando-se; 
respeitado quem procede bem. Deixa-me ao menos variar!
Ela gostava tanto de o ver em seu uniforme, "todo bonitinho", como
uma pintura, chamando a ateno dos burgueses, admirado, invejado,
gabado. Assentava-lhe muito mais a roupa de marinheiro; sem
comparao! O que era um soldado  paisana? Um homem como
qualquer outro, um pobre-diabo que ningum respeitava. Oh! a
farda...
- Mas eu no quero, filha, no gosto. So cousas...
- Bom, no precisa brigar. Vai como quiseres.
Estava escurecendo. No interior do sobradinho j se no distinguiam
os objetos. Fora, na rua, acendiam-se os primeiros bicos de gs e
havia grande calma, uma sonolncia profunda no quarteiro.
- Creio que vamos ter chuva, disse Aleixo dando um salto  janela.
Com efeito, nuvens escuras alastravam-se pelo cu, baixas, pesadas,
rolando como fumarada negra de incndio. O tempo refrescava. Corria
mesmo uma aragenzinha branda e acariciadora. Uma voz humana
imitava guinchos de locomotiva para os lados da Misericrdia.
Passava o bonde da Lapa. D. Carolina e Aleixo embarcaram, ela muito
alegre, muito expansiva, na sua toilette improvisada, que lhe dava um
ar bonacho e honesto, ele um pouco triste, chapu de palhinha
derreado para a nuca, mostrando o cabelo penteado em pastas, uma
gravata cor de sangue - aprumado e circunspecto.
O bonde tocou.
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11
Um desespero surdo, um desespero incrvel, aumentado por acidentes
patolgicos, fomentado por uma espcie de lepra contagiosa que
brotara, rpido, em seu corpo, onde sangravam ainda,
obstinadamente, lvidas marcas de castigo - um desespero fantstico
enchia o corao amargurado de Bom-Crioulo. No lhe restava mais
esperana que Aleixo fosse v-lo ao hospital: estava desiludido. O
grumete abandonara-o, esquecera-o, e nem ao menos dera-lhe uma
satisfao! - Atrs dos apedrejados vem as pedras... Uma pessoa, no
fim das contas, era obrigada a tornar-se ruim, a fazer todas as
loucuras... Isso de a gente pensar na vida, sacrificar-se, proceder
bem, no vale nada,  uma grande tolice, uma grande asneira.
Tinha momentos de calma, procurando afastar do esprito qualquer
idia de vingana, de desforra, como quem se julga superior s
pequeninas misrias da vida. Durante o dia jogava a dama com o tal
empregado que lhe fizera o bilhete, resignado, sem clera, prazenteiro
mesmo, no perdendo, entretanto, aquela vaga expresso de
melancolia que boiava em seus olhos traindo mistrios d'alma...
Era  noite, porm, que o caso de Aleixo voltava-lhe  imaginao,
enchendo-a de fantasmas, povoando-a de sonhos, com a insistncia
de um remorso - noite, nas horas de repouso, quando tudo era
silncio no hospital.
Positivamente no se conformava com a idia de que o Aleixo o
abandonara por outro... E quem seria esse outro? Algum marinheiro
tambm, decerto, algum "primeira-classe"... Era muita ingratido,
muita baixeza! Abandon-lo, por qu? Porque era negro, porque fora
escravo? To bom era ele quanto o imperador!...
Consumia-se em reflexes pueris, verberando o procedimento de
Aleixo, uivando pragas que ningum escutava, dardejando cleras,
tempestuoso e medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites
de um sonambulismo fantstico e enervante, de uma obsesso rude e
esmagadora. E quando, pela madrugada, vinha-lhe o sono, era
impossvel dormir, porque vinham-lhe tambm o que ele chamava "as
coceiras", um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como se o
sangue fosse esguichar pelos poros numa hemorragia formidvel ou
como se estivesse crivado de alfinetes da cabea aos ps; - no podia
fechar os olhos, nem tranqilizar o esprito. Seu desejo era sair como
um dodo por ali fora, meter-se num banho e ficar n'gua um ror de
tempo agachado, nu em plo. Parecia uma maldio! Rebentavam-lhe
feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. No atinava
com aquilo. Talvez alguma praga injusta... Era horroroso! Levar um
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homem a noite inteira sem dormir, pensando numa cousa, noutra, e,
ainda por cima, o diabo de umas coceiras que punham a gente doida!
Ento  que tinha raiva de Aleixo, ento  que se revoltava contra o
grumete, o "causador de todos os seus males". Naquele estado aflitivo
de desespero de corpo e d'alma ia-se-lhe a razo - Bom-Crioulo s
tinha uma idia: vingar-se do efebo, persegui-lo at a morte, aniquillo
para sempre!
Era um misto de dio, de amor e de cime, o que ele experimentava
nesses momentos. Longe de apagar-se o desejo de tornar a possuir o
grumete, esse desejo aumentava em seu corao ferido pelo desprezo
do rapazinho. Aleixo era uma terra perdida que ele devia reconquistar
fosse como fosse; ningum tinha o direito de lhe roubar aquela
amizade, aquele tesouro de gozos, aquela torre de marfim construda
pelas suas prprias mos. Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito,
como uma cousa inviolvel. Da tambm o dio ao grumete, um dio
surdo, mastigado, brutal como as cleras de Otelo...
Aleixo com outro homem! Esta idia fazia-o enlouquecer de cime,
torturava-o como um sofrimento agudo, como uma chaga viva e
dolorosa.
Que felicidade, que alvio, que suprema ventura, quando pela manh,
j dia claro, o sol, tpido e louo, entrava cheio de mistrio pela
enfermaria dentro, e recomeava em todo o hospital a bela vida!...
Foi justamente numa dessas noites e obsesso e desespero que Bom-
Crioulo galgou a muralha do estabelecimento e abalou vertiginoso para
a Rua da Misericrdia, cego, s tontas, como quem vai precipitar-se
num abismo.
Era um sbado feriado. Entre os marinheiros que tinham ido ao
hospital visitar os amigos, Bom-Crioulo reconhecera o Pinga da
corveta, seu companheiro de viagem outrora - o Pinga, o Herculano,
que fora surpreendido a praticar uma ao feia e deprimente do
carter humano, junto  amurada, na proa, certa noite...
-  Herculano, vem c!
- Oh! Bom-Crioulo!
- Ento, que  feito de ti? perguntou o negro, interessado, conduzindo
o outro pelo brao. Onde  que ests agora?
Herculano estava mudado, j no era o mesmo Pinga retrado e
esquivo, com olheiras, falando pausadamente. Estava outro,
admiravelmente outro, O Herculano - gordo, rosado, o olhar vivo e
brilhante, sem melancolia, nem sombra alguma de tristeza. Perdera a
antiga palidez que lhe dava um arzinho pulha de cousa -toa, falava
desempenado, alto, e ria, como uma criana, por ninharias. - "Onde
estava agora? Na corveta, sempre na corveta."
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- Ainda? fez Bom-Crioulo admirado, ocultando a satisfao que lhe
fazia a resposta. Ainda ests na corveta, homem de Deus?
- Por que no? Aquilo  que  navio. Depois que saiu do dique, nem
parece a mesma. Faz gosto v-la. Toda pintadinha, toda nova, que 
ver uma tetia.
- Mas, como  que se muda assim, rapaz? Tu, que eras to pobre de
sangue, ests me parecendo bonito, homem!
- Qual o qu! sorriu Herculano. J estive mais gordo...
Ia reparando em Bom-Crioulo. Como estava acabado o negro! Viamse-
lhe os ossos da cara; tinha uma grande cicatriz, uma espcie de
ruga funda no pescoo...
- Ests doente? perguntou.
- Ando com umas coceiras, umas feridas no corpo... Diz que  sarna.
- Ah!... Porque ests magro, meu velho, ests na espinha. Que diabo!
E depois de uma pausa.
- Eu vim ver o Anacleto, que est com uma carregao... No sabias
que tinha baixado tambm, que andavas por aqui. Fazia-te longe...
-  verdade, h quase um ms nesta desgraa, me acabando!
Chegaram  enfermaria. Os doentes olhavam-nos, palrando, em
grupos, nos corredores, nas dependncias do hospital. Alguns
convalescentes jogavam a peteca num largo donde se avistava o mar.
Ia para as seis da tarde. Os navios de guerra, imveis e
embandeirados, tinham um aspecto festivo. Ouviam-se toques de
corneta ao longe e sons de msica em terra, na cidade. Barcas de
Niteri cruzavam-se no meio da baa calma. Por toda a parte, no mar e
em terra, um frmito de alegria universal e domingueira, uma
estranha alacridade perdendo-se ao longe, nas primeiras nvoas do
crepsculo. J se no via o disco de ouro do sol; a claridade ia pouco a
pouco tornando-se difusa, esmaecida, langue, como uma manh de
brumas. O perfil das embarcaes, o contorno das montanhas, torres e
chamins - tudo mergulhava na noite que descia palpitante de
mistrios...
Ao Herculano pouco se lhe dava que anoitecesse, porque estava de
folga; da, do hospital, iria para terra num bote de ganho. Mas era
preciso no demorar muito, sob pena de fechar-se o porto do
estabelecimento, e ele amanhecer naquele "cemitrio de vivos"...
Bom-Crioulo tranqilizou-o: - Ainda era cedo,. Que pressa, que
vexame!
E muito jeitoso, muito amvel:
- Senta um pouco. Nada de cerimnias: isto aqui  meu,  teu,  do
Governo. Podemos conversar  vontade.
Herculano correu o olhar pela enfermaria, pelo cho, pelo teto, pelas
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camas alinhadas. De resto, no era m vida... Boas camas, bom
passadio, liberdade...
-  porque ainda no passaste uma noite aqui dentro, meu velho. Um
inferno  o que isto . S mesmo para quem no pode agentar-se.
Boa cama temos ns a bordo.
- Pode-se fumar? perguntou o outro.
-  proibido, mas fuma l teu cigarro.
Tinham se sentado na cama do negro, muito encardida. - "Era s um
instantinho", avisou o grumete.
E Bom-Crioulo puxou conversa:
- D-me notcias daquela gente,  Herculano. Como vai o Aleixo, como
vai o guardio Agostinho, como vo todos?...
- Bem. O guardio Agostinho sempre malvado, aquele cabra - malvado
e "implicante". Eu, felizmente, no lhe tenho cado nas unhas;
felizmente! O Aleixo, aqui pra ns, anda muito metido com os oficiais.
Vive na praa d'armas,  quem d corda no relgio,  quem arruma os
camarotes, quem faz tudo. Est um pelintra, filho, um grande pelintra:
 o nenenzinho de bordo. Sai quando quer, entra quando quer...
Bom-Crioulo pigarreou.
- Eu, por mim, no troco palavra com ele, continuou Herculano.
Estamos de mal, por uma asneira, por uma tolice... Outro dia quase
nos pegamos. Dizem at que est amigado, em terra, com uma
rapariga.
- Amigado!?...
- Sim, amigado, um pitorra daquele.  o que dizem, eu no sei.
Bom-Crioulo tomava sentido, cheio de interesse, dominando-se,
abafando uma golfada de palavres, uma onda de clera, que estava
quase a irromper-lhe da boca. Desesperava. Na tpida penumbra da
enfermaria o seu olhar tomava uma expresso dolorida e mida, como
o olhar de um nufrago perdido no crculo imenso das guas. Era uma
tempestade surda e impenetrvel, um desabar de todas as crenas, de
todas as iluses, de todas as foras que mantm o equilbrio de uma
natureza humana em revolta...
- O Sant'Ana, esse desertou, foi-se embora, foi-se embora, ningum
sabe para onde. Tambm, coitado! apanhava que nem boi ladro. Era
um pobre diabo...
Trocaram ainda algumas palavras. Herculano contou episdios ntimos
de bordo, muito loquaz, muito verboso; e como j fosse noite:
- Adeus, Bom-Crioulo, que eu me vou chegando. Estimo que fiques
bom, hein! que fiques completamente bom. Eu l estou, na corveta,
para o que quiseres. Boa noite!
- Boa noite, murmurou o negro com uma voz triste e profunda, quase
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lgubre.
Acendiam-se as estrelas no cu muito alto e de uma limpidez
outonal...
Bom-Crioulo no pensou em dormir, cheio, como estava, de dio e
desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre fnebre,
aquelas palavras de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente
: -"Dizem at que est amigado!"
Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia
como o seu prprio corao: ele, que nunca lhe falara em mulheres,
que dantes era to ingnuo, to dedicado, to bom!... Amigar-se,
viver com uma mulher, sentir o contacto de outro corpo que no o
seu, deixar-se beijar, morder, nas nsias do gozo, por outra pessoa
que no ele, Bom-Crioulo!...
Agora  que tinha um desejo enorme, uma sofreguido louca de v-lo,
rendido a seus ps, como um animalzinho; agora  que lhe renasciam
mpetos vorazes de novilho solto, incongruncias de macho em cio,
nostalgias de libertino fogoso... As palavras de Herculano (aquela
histria do grumete com uma rapariga) tinham-lhe despertado o
sangue, fora como uma espcie de urtiga brava arranhando-lhe a pele,
excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia questo! E no
era somente questo de possuir o grumete, de goz-lo como outrora,
l cima, no quartinho da Rua da Misericrdia: - era questo de gozlo,
maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer... No, no era
somente o gozo comum, a sensao ordinria, o que ele queria depois
das palavras de Herculano: era o prazer brutal, doloroso, fora de todas
as leis, de todas as normas... E havia de t-lo, custasse o que
custasse!
Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar
pelo mundo  procura de Aleixo.
Inquieto, sobreexcitado, nervoso, ps-se a meditar. O grumete
aparecia-lhe com uma feio nova, transfigurado pelos excessos do
amor, degenerado, sem aquele arzinho bisonho que todos lhe
admiravam, o rosto spero, crivado de espinhas, magro, sem cor, sem
sangue nos lbios... Pudera! Um homem no resiste, quanto mais uma
criana! Aleixo devia estar muito acabado; via-o nos braos da
amante, da tal rapariga - ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos
-, via-o rolar em espasmos luxuriosos, grudado  mulher, sobre uma
cama fresca e alva - rolar e cair extenuado, crucificado, morto de
fraqueza... Depois a rapariga debruava-se sobre ele, juntava boca 
boca num grande beijo de reconhecimento. E no dia seguinte, na noite
seguinte, a mesma cousa.
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Bom-Crioulo desnorteava. Inconscientemente era arrastado para um
mundo de idias vagas que no o permitiam tomar uma soluo
pronta, definitiva. S uma idia conservava-se firme e clara em seu
esprito: fugir, fugir quanto antes, no esperar mais nem um segundo,
romper os diques de seu isolamento e amanhecer na rua, no meio da
cidade, longe do hospital, "desse hospital de merda"!
Seus clculos no podiam falhar. Deixava uma janela aberta,
pretextando calor, arrumava a trouxa...- qual trouxa! nem era preciso
trouxa! - e, alta noite, descia por um cabo. As janelas que davam para
os rgos ficavam sobre um terreno anfractuoso, espcie de ladeira
bronca, meio ngreme, despenhando para umas oficinas e estaleiros
que havia embaixo, na ilha. No eram, porm, to altas que se no
pudesse, embora dificilmente, com agilidade, tentar uma escalada. E
Bom-Crioulo no seria o primeiro; antes dele, outros haviam desertado
por ali. Contava-se de um que rolara a montanha, sendo encontrado
quase morto ao p de uma rvore, o corpo todo cheio de pisaduras,
vertendo sangue pelo nariz; veio a morrer da queda, que lhe produzira
uma doena grave na espinha.
O negro no teve dvida; ergueu-se (era uma hora da madrugada), foi
 casinha, para no dar a perceber, amarrou na cintura uma navalha
de marinheiro que o acompanhava sempre, vestiu, por baixo da roupa
branca de doente, a camisa de gola, e voltou cauteloso, perscrutando
o silncio e a escurido. Depois, foi tudo rpido: deu volta ao cabo na
janela, um cabo grosso tranado, e -... que os pariu! - saltou fora.
Uma escurido medonha na baa e um silncio de arrepiar cabelo. Era
a hora do sono forte, do sono pesado. As sentinelas bradavam, de
instante a instante, o seu prolongado - alerta! que o eco repetia no
mar e em terra. Nenhuma outra voz, nenhum outro sinal de vida. A
cidade iluminada, estrelada de luzes microscpicas, era como vasta
necrpole na lgubre inquietao da noite.
Bom-Crioulo sentia um friozinho brando, um leve bafejo matinal
arrepiar-lhe a nuca. Dirigiu-se tateando, tateando, rente com o
paredo do hospital, sem olhar pra trs, sem ver nada. Tinha
examinado bem o terreno antes de se aventurar; por esse modo,
caminhando naquele rumo, ia direito a uma descida pouco escabrosa.
Embaixo ficava o dique. era preciso muita cautela, muito jeito para
no precipitar-se. Foi indo, foi indo, ora agachado, ora em p,
segurando aqui, segurando acol, s apalpadelas, e pde enfim -que
os pariu! - chegar ao cais,  beira d'gua, sem o mais leve arranho.
Dava meia hora na Candelria - uma pancada sonora e cheia, que
reboou longe, soturnamente, acordando os ecos. - "Faltava atravessar
o canal, pensou Bom-Crioulo, medindo com o olhar a extenso lquida
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que separava o arsenal da ilha. Pacincia, um pouquinho de pacincia.
Devagar..." Encolheu-se todo por trs de um guindaste, reflexionando.
- Ia dali rente para o sobrado: queria ver como estava aquilo; queria
fazer uma surpresa ao senhor Aleixo. E a portuguesa? J no se
lembrava dela!...  verdade, a portuguesa?...
Um relmpago, uma dvida passou rpida em seu esprito,
deslumbrando-o: - Qual! No era possvel!... Que tolice!...
O friozinho aumentava. O relgio da Candelria, sonoro e profundo,
badalou duas horas. Bom-Crioulo ergueu a vista para o cu: - as
estrelas palpitavam; a via-lctea resplandecia, branca e tortuosa, na
infinita serenidade da noite. Defronte, no arsenal, erguia-se o perfil de
uma grande chamin sombria. A gua marulhava no cais
monotonamente, em seu eterno fluxo e refluxo. - Alerta! bradavam as
sentinelas a cada instante, na ilha, no arsenal, na Alfndega, nos
trapiches. Em toda parte o mesmo silncio, a mesma quietao, a
mesma clama profunda.
A noite parecia no acabar, no ter fim: era como uma eternidade.
Arrastado pela mar, um objeto ia flutuando guas abaixo,
vagarosamente. - Algum trapo velho, pensou o negro, talvez mesmo,
quem sabe? algum "corpo"...
E nada de clarear, nada de amanhecer; j se ia impacientando! Que
diabo fazia ele que no tomava uma resoluo? Era para isso que tinha
fugido, pra estar ali de boca aberta, caindo de sono? Mas no havia
remdio, seno esperar, no havia outro jeito. Ir a nado? Qual! E as
sentinelas?... Pacincia, pacincia...
Duas horas no relgio da Candelria. Apenas uma voz bradou,
longnqua e desolada, sem eco: - Alerta!
Bom-Crioulo recostou a cabea no guindaste, bbedo de sono, um
peso nas plpebras, uma indisposio no corpo; e, no obstante as
"coceiras", que a vinham-lhe subindo nas pernas, como um
formigueiro, adormeceu ao rumorzinho da gua no cais.
Quando ergueu a vista, momentos depois, era quase dia. Comeava o
tumulto de escaleres e catraieiros para os lados da Alfndega. Ouviase
o barulho de remos e o arquejar de uma lancha deitando vapor
fora. Os rgos, indistintos ainda na meia sombra do alvorecer, iam
pouco a pouco evidenciando sua bela configurao de harmnium
colossal. Uma ou outra luzinha plida no anfiteatro da cidade. Tinha-se
apagado a iluminao. No mosteiro de S. Bento um sino fanhoso
vibrava matinas desde as trs horas, insistentemente, num alvoroo
de igrejinha d'aldeia que acordas proclamando os triunfos da
cristandade. A bordo, nos navios de guerra, cornetas preludiavam o
hino do amanhecer. Do outro lado da baa, em Niteri, uma nvoa
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fina, transparente, como a evaporao de um grande lago, fraldejava
as montanhas, ocultando a paisagem de um extremo a outro. E l fora
da Barra, para alm do Po d'ucar, um listro cor de rosa, pouco
apouco ia-se tornando mais vivo, mais fulgurante no cu lvido...
Bom-Crioulo circunvagou o olhar, muito admirado, muito
surpreendido, como se estivesse num lugar estranho, e a primeira
palavra que lhe veio  boca foi uma obscenidade: - "... que os pariu!
Ia-se desgraando!... Mos  obra! Felizmente ainda no era dia
claro..."
Nenhum bote, nenhuma embarcao, ali perto, no canal, O movimento
era todo na vizinhana da Alfndega, no cais dos Mineiros. Passavam
escaleres de guerra: Bom-Crioulo escondia-se para no ser visto. -
Diabo! diabo! Tudo por causa de um grumetezinho!...
De repente, ouviu barulho n'gua - aproximou-se: era um bote de
ganho.
- "At que enfim! Ora at que enfim!"
A pequena embarcao vinha-se chegando para a ilha sem toldo,
remada por um galego de suas, meio velho. Trazia  popa, no
recosto do paineiro, o dstico - Luis de Cames, por cima de uma
figura  leo, que tanto podia ser a do grande pico como a de
qualquer outra pessoa barbada, em cuja fronte se houvesse
desenhado uma coroa de louros. Nessa infame garatuja, o poeta tinha
o olho esquerdo vazado, o que, afinal de contas, no interessava ao
negro.
- Quer me levar ao cais? perguntou Bom-Crioulo ao portugus,
-  j! disse o homem atracando. O Luis de Cames no dorme.
- Vamos.
- Pode embarcar.
- Upa!
E, com um salto, Bom-Crioulo embarcou. Estava, enfim, livre de
perigo; - "... que os pariu!"
Da a instante perdia-se no labirinto da cidade, marchando no seu
passo largo, muito desenvolto, quebrando ruas, dobrando esquinas,
"bordejando"...
Estava um dia lindo, lindo! Um dia de galas no azul e nas montanha,
um dia e liberdade!
12
Quase nenhum movimento ainda na Rua da Misericrdia; sujeitos mal
vestidos, operrios e ganhadores, desciam com ar miservel e bisonho
de ovelhas mansas que seguem fatalmente, num passo ronceiro,
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numa lentido arrastada, numa quase indolncia de eunucos. A vaca
do leite, com as grandes tetas pesadas, um chocalho ao pescoo, ia no
seu giro quotidiano, muito dcil, o ventre bojudo, uma baba a
escorrer-lhe do focinho em fios d'espuma. A carrocinha do lixo, pintada
de azul, andava na sua faina matinal, parando aqui, parando acol.
Nenhum esto de vista quebrava a monotonia do quarteiro; somente o
rudo dos bondes e uma ou outra voz falando alto. Pairava um cheiro
forte de urina, assim como uma emanao agressiva de mictrio
pblico, envenenando a atmosfera, intoxicando a respirao. Os
primeiros reflexos do sol batiam nas vidraas obliquamente acordando
os moradores, colorindo a frente das casas em pinceladas de ouro,
dando brilhos de cristal puro ao granito dos portais, doendo na vista
com fulguraes quentes de revrbero; e j se comeava a sentir um
calorzinho brando, uma tepidez morrinhenta, um princpio de
mormao.
Abriam-se botequins preguiosos, lojas de negcio, estabelecimentos
de madeira, carvoarias, quitandas.
O movimento, porm, aumentava com a luz; multiplicavam-se os
transeuntes numa confuso bizarra de cores e toilettes: daqui, dali,
surgiam caras estranhas, fisionomias amarrotadas pelo sono, como
abelhas de um cortio.
A vida recomeava.
Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, calculando
a distncia, lento e lento, rumo do sobradinho. J o avistava: era o
mesmo de outrora, o mesmssimo, com as duas janelas da frente, com
o seu aspecto antigo, do tempo del-rei, e l, no alto, l cima, no
telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se, dependurada quase...
Veio-lhe um no sei qu, uma saudade, como cousa que lhe entrasse
n'alma, a dor de uma ingratido: ali  que ele se juntara ao outro com
uma confiana de noivos; ali  que ele tinha passado o melhor da sua
vida; ali  que ele tinha aprendido a amar, a "querer bem"...
E murmurava entre dentes, banhado no eflvio da suas
reminiscncias, levado pelo fio inquebrantvel das doces recordaes:
- "Aquele sobradinho, aquele sobradinho!..."
Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno
voltaram do cruzeiro e l foram juntinhos para o quarto de cima, onde
morrera, dias antes, o portugus, de febre amarela. Oh! tinha tudo na
cabea; lembrava-se bem: a primeira noite, os modos ingnuos de
Aleixo, a cena da vela... - tudo estava gravado em sua imaginao,
tudo!
Enchiam-se-lhe os olhos d'gua, turvava-se-lhe a vista, nem era bom
pensar...
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Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que
nunca lhe doa fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado,
proposital, voluntrio, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava
impunemente. "-Ah! era assim, hein? Pois havia de lhas pagar hoje ou
amanh. A gente  como um copo d'gua: vai-se enchendo, vai-se
enchendo, at no poder mais!"
Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por
trs da nvoa mida das lgrimas; todo ele vibrava, todo ele tremia
como um epilptico: vinham-lhe cleras, mpetos, aflies... Quase
no se podia conter diante daquela casa, que era como o tmulo
mesmo das suas iluses. Transfigurava-se, enlouquecia de dio,
espumava de clera, de raiva, de cime! O aspecto das cousas, o
mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto
seus olhos viam naquela hora de amargura, o prprio sol, a prpria luz
torrencial do dia causava-lhe um tdio imenso; arrancando-lhe
blasfmias da boca entreaberta num sorriso agoniado e convulso. No
tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no sobradinho: baixava-os
logo gelado: - "Era ali mesmo, tal e qual!"
Comeou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago
de insetos, uma cousa desagradvel, incmoda e amofinadora;
tremiam-lhe as pernas; ia-se-lhe faltando a respirao. Era um malestar,
um nervoso, uma aflio, um delrio, um vago desejo de matar,
de assassinar, de ver sangue... Passou a mo nos olhos, trmulo,
encostando-se  coluna de um gs; quase no podia ter-se em p:
estava sem foras, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o
horrorosamente, o "maldito hospital". -"Nunca mais havia de l, por os
ps, nunca mais!"
A porta do sobrado estava fechada; em cima a meia vidraa de uma
janela conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma
imobilidade sepulcral, desoladora!
Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, atnito, sem conscincia do meio
em que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando,
andando, muito devagar por ali acima.
De repente: - "Ah! a padaria!" J se no lembrava; era a mesma
tambm, a mesmssima, com seu grande letreiro na fachada - Padaria
Lusitana, com suas trs portas, debaixo de uma sobrado, quase
defronte da portuguesa. Vinha l dos fundos um cheiro bom de massa,
um apetitoso cheiro de po quente.
Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar, dirigiu-se ao
empregado, um muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de
alm-mar.
- O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho,
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uma portuguesa?
- D. Carolina?
- Essa mesma: uma gorda, bonitona...
- Mora, pois no! disse o outro com um qu de malcia nos olhos.
- E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis...?
- Tambm, Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada.
Costumam sair juntos  noite...
- Saem juntos?
- Pois no! A mim me parece que o menino  bem espertinho...
Bom-Crioulo estremeceu. Ia saber tudo agora, pela boca do caixeiro: a
ocasio era a melhor porque o dono do estabelecimento andava fora.
- O senhor no estar enganado? tornou ele muito curioso,
precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.
E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o
marinheiro: - Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d'olhos grandes,
que alugava quartos...
- Essa mesma, homem!
- O outro no tinha barba, era meio criana ainda, olhos azuis, muito
alvo, bonitinho...
- Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem,  Tomada
da Bastilha. Conheo muito D. Carolina. Dizem at que est amigada
com o pequeno...
Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma histria de
mulher! Bom-Crioulo ficou imvel, calado, perdido nas suas idias. -
Aleixo amigado com a portuguesa, com a D. Carolina! Era
inacreditvel, era um desaforo sem nome, um desrespeito, uma falta
de vergonha, um escndalo!
- Est admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha
agora uma dolorosa, uma extraordinria, uma indizvel expresso de
melancolia e surpresa. No se admire, no, que  que o todos dizem...
E logo, interrompendo-se, com o brao estendido:
- Olhe, nem de propsito: a vem ele, o pequeno...
Aleixo ia saindo porta fora, tranqilamente, apertado na sua roupa
azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a cala justa.
O negro teve um daqueles mpetos medonhos, que o acometiam s
vezes; garganteou um - oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro,
furioso, perdido de clera, sem dar tempo a nada, precipitou-se, numa
vertigem de seta, para a rua. No via nada, tresvariado, como se de
repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a razo do crebro.
Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo brao.
Tremia numa crise formidvel de desespero, os olhos congestionados,
um suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente.
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O pequeno estacou surpreendido:
- Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era
s meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como
estou magro, como estou acabado... Olha, olha!
E apertava bruscamente o outro, sacudindo-lhe como se o quisesse
atirar no cho.
- V l se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!
O efebo debatia-se, plido, aterrado:
- Me largue! No me provoque, seno eu grito!
- Anda pr'a, grita, se s capaz! Grita, safado, sem-vergonha... malagradecido!
Sua voz tomava uma inflexo voluptuosa e terrvel ao mesmo tempo;
a palavra saa-lhe gaguejada, estuporada e trmula.
- Grita, anda!
O outro mudava de cores, recuava trpego, a lngua presa, quase a
chorar, numa aflio de culpado, o olhar azul submisso refletindo a
imagem do negro:
- Me largue, repetiu. Eu lhe peo: me largue!
Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela
posio, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque
Bom-Crioulo no falava alto, que todos ouvissem, no dava escndalo,
no fazia alarme: sua voz era um rugido cavernoso e histrico, um
regougo abafado. longnquo e profundo.
- Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!
- Me solte! continuou o efebo trmulo, acovardado. Me largue!
- No te largo, no, coisinha ruim, no te largo, no! Bom-Crioulo,
este que aqui est, no  o que tu pensas...
- Mas eu no fiz nada! Me solte, que  tarde!
Os olhos do negro tinham uma expresso feroz e amargurada, muito
rubros, cruzando-se, s vezes, num estrabismo nervoso de alucinado.
Um sujeito parou defronte, a olh-los; vieram depois outras pessoas,
outros curiosos; um marinheiro da Capitania, um italiano carregado de
flandres, um guarda municipal, crianas, mulheres...
Houve logo um fecha-fecha, um tumulto, um alvoroo. Trilaram
apitos; vozes gritavam - rolo! rolo! e a multido crescia no meio da
rua, procurando lugar, empurrando, abrindo caminho, precipitando-se,
formando um grande crculo de gentes ao redor dos dois marinheiros,
invisveis agora.
Os bondes paravam. Senhoras vinham  janela, compondo os cabelos,
numa nsia de novidade. Latiam ces. Um movimento cheio de
rumores, uma balbrdia! Circulavam boatos aterradores, notcias
vagas, incompletas. Inventavam-se histrias de assassinato, de
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cabea quebrada, de sangue. Cada olhar, cada fisionomia era uma
interrogao. Chegavam soldados, marinheiros, policiais. Fechavam-se
portas com estrondo.
Alguma cousa extraordinria tinha havido porque, de repente, o povo
recuou, abrindo passagem, num atropelo.
- Abre! abre! diziam soldados erguendo o rifle.
De cima, das casa, mos apontavam pra baixo.
E D. Carolina tambm chegara  janela com a vozeria, com o barulho,
viu, entre duas filas de curiosos, o grumete ensangentado...
- Jesus! Meu Deus!
Uma nuvem escureceu-lhe a vista, correu um frio pelo corpo, e toda
ela tremia horrorizada, branca, imvel.
Muitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.
Aleixo passava nos braos de dois marinheiros, levado como um fardo,
o corpo mole, a cabea pendida para trs, roxo, os olhos imveis, a
boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a cala branca tinha
grandes ndoas vermelhas. O pescoo estava envolvido num chumao
de panos. Os braos caiam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa
frouxido de membros mutilados.
A rua enchia-se de gente pelas janelas, pelas portas, pelas caladas.
Era uma curiosidade tumultuosa e flagrante a saltar dos olhos, um
desejo irresistvel de ver, uma irresistvel atrao, uma nsia!
Ningum se importava com o "o outro", com o negro, que l ia, rua
abaixo, triste e desolado, entre as baionetas,  luz quente da manh:
todos, porm, queriam "ver o cadver", analisar o ferimento, meter o
nariz na chaga...
Mas, um carro rodou, todo lgubre, todo fechado, e a onda dos
curiosos foi se espalhando, se espalhando, t cair tudo na monotonia
habitual, no eterno vaivm.
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